domingo, 13 de dezembro de 2009

Um certo García Lorca


O fim de ano vem chegando e as celebrações começando: natal e, no meu caso, virada de ano juntinho com aniversário (oh: aceito presentes!). Momento de comemoração, vencemos outro ano. Inevitavelmente, lembramo-nos daqueles que ficaram pelo caminho – todo ano deixa marcas: algumas, pesadas como montanhas. Outras, leves feito plumas.

Fim de ano é momento de traçar metas, assumir responsabilidades para o próximo calendário. Atitude. Precisamos contribuir para a melhoria do planeta, assunto primeiro das pautas daqueles que têm um mínimo de consciência.

Lembrei-me do poeta, dramaturgo e compositor andaluz Federico García Lorca, nascido nos arredores de Granada, sul da Espanha. Assassinado em 1936 no início da ditadura franquista, aos 38 anos, García Lorca tinha voz e preocupação com este mundo. Alguns anos antes de perder a vida brutalmente, chegou a dizer: "O mundo está imobilizado diante da fome que extermina os povos. Enquanto houver esse desequilíbrio, o mundo não poderá raciocinar. Vi isso com meus próprios olhos. Dois homens que se vão à margem de um rio. Um é rico; o outro, pobre. Um com a barriga cheia e o outro que enche o ar com seus bocejos. E o rico exclama: 'Oh, que lindo barco vai passando! Veja essa flor na margem do rio!'. O pobre só pode balbuciar: 'Estou com fome, não vejo nada'. Naturalmente. No dia em que a fome desaparecer, haverá no mundo a maior explosão espiritual que a humanidade tenha jamais visto. É difícil imaginar a alegria que brotará nesse dia".

O autor deu este depoimento na década de 1930. Parece que foi ontem. Que nos sirva de inspiração.

Boas festas. Um 2010 repleto de paz, saúde e realizações.

P.S.: quem quiser conhecer poemas musicados de Lorca, acesse
www.myspace.com/proyectolorca


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

É o fim do mundo!

Essa história de 2012 ser o fim já está dando muito que falar. Também não é para menos. Várias profecias de culturas antigas convergem numa data: dezembro de 2012. Ao que tudo indica, algo muito forte poderá acontecer. Dizem que o calendário Maia, desenvolvido há cerca de três mil anos, previu os eclipses vivenciados atualmente. As previsões eram baseadas nas estrelas e, para cada ciclo de 20 anos, eles chamavam de katún. Para cada katún existe uma profecia. A última delas diz que, no ciclo que se encerra em 2012, terminará o mundo como nós o conhecemos.

A notícia não é das melhores. Mas, fazer o que? Estocar alimento? Realizar até lá tudo o que der na telha? Quitar as dívidas? Tem gente que já deve estar planejando o contrário: fazer financiamentos com prazos de pagamento bem maiores que 24 meses.

Por enquanto, a astrologia apenas confirma que, nesta data, teremos o alinhamento completo de todos os planetas do sistema solar. E mais: além de estarem alinhados entre si, todos eles estarão em fila indiana desfilando no centro da Via Láctea, fato que ocorre a cada 26.000 anos. Há pessoas por aí que suspeitam que isso pode alterar o fluxo magnético da Terra, podendo até fazer com que ela mude seu eixo de rotação, girando para o lado oposto. Vixe, agora deu um certo medinho pensar no planeta girando ao contrário. Isso deve ser bom não.

E como o cinema não pode esperar até lá, naturalmente, eis que mais uma vez surge nas telas o fim do mundo antecipado, para que possamos assisti-lo de camarote, comendo pipoca. Conduzido pelo diretor Roland Emmerich, um especialista em filmes apocalípticos, como “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”, “2012” utiliza-se magistralmente dos efeitos especiais. Até aí, tudo bem. Os grandes estúdios fazem hoje qualquer coisa com doses cavalares de realismo. Mas o problema mesmo reside em assistir a um filme de Emmerich – é o fim! Não dá, nem com boa vontade extrema. Os enredos são terríveis. Pavorosos. Além das películas citadas anteriormente, soma-se à sua filmografia “Soldado Universal”, “Godzilla”, “10.000 a.C.”, dentre outros feitos. Difícil encontrar coisa pior com orçamento tão alto. Se bem que podemos considerar isso um mérito: sujeito tem poder de convencimento. E deve render muito aos cofres dos grandes estúdios, obviamente.

Agora, cá entre nós: não precisa ser vidente nem guru pra saber que o mundo não anda bem das pernas. De tudo isso, de um filme desses, fica um alerta: estamos chegando a um momento histórico realmente complicado. Não é difícil perceber isso. Consciência e atitude serão fatores importantes na condução deste século que, já na primeira década, mostrou a que veio. Cada cidadão planetário precisa fazer a sua parte desde já. Inclusive nós, brasileiros. Precisamos do mundo existindo, para que a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 aqui estejam.

Até a próxima.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Rodolfo, o ingrato

Meu iguana fugiu. Ingrato. Rodolfo, o nome dele. Pensar que o alimentei desde bebê, dando-lhe todos os insetinhos que gostava... Quando o ganhei, tinha o tamanho de um calango. Um ano depois, parecia um estrangeiro, recém chegado de Galápagos. O bicho era enorme! Por isso mesmo, as crianças do prédio o adoravam. Fim de semana, lá ia o papai aqui radiante com Rodolfinho na coleira. Dá pra acreditar? Saía com ele à base de coleira. Forte, o bicho; dava solavanco. Primeira vez que a meninada o viu, foi inesquecível. “Alá, mãe, alá: um jacaré! Um jacaré!”. O guri ficou todo arrepiado, seus olhos esbugalharam. E ele ainda fazia: “Uh, uh, sai pra lá, jacaré!”. Teve outro moleque, menorzinho, que disparou: “nó, que largatixão!”. Assim mesmo: largatixão, com o “r” fora do lugar.

Rodolfo era educado. Silencioso que só ele. E o melhor: asseado feito galã de novela da Globo com apartamento na Barra. É isso mesmo: se alguém pensou que confundi asseado com assediado se enganou redondamente. Ou alguma pessoa duvida que os atores bonitões estejam sempre limpinhos? Pois é, meu iguana jamais fazia suas necessidades fisiológicas fora de sua “terrinha” – um caixotão enorme de madeira estrategicamente revestido de areia, com umas plantinhas, uns pedregulhos e um laguinho. Tudo pra deixá-lo “em casa”. Vez em quando lhe dava um surto e ele mexia o rabo gigantesco, fazendo voar areia até as cucuias. Acho que foi por isso que a minha “free lancer” o deixou escapar – se não foi ela, fui eu. Será que a culpa foi minha? Mas como é possível um jacaré fugir de um apartamento, sem ser visto por um mísero ser humano? Falar a verdade, mesmo já tendo passado algum tempo, uma lebre me diz que ele ainda se encontra pelas redondezas, fazendo-se de besta. Vai ver se enrabichou pela cachorra da vizinha. Não me entendam mal: a vizinha não é uma cachorra. Ao contrário, sempre se demonstrou muito certinha e ajuizada. Tem namorado sério e tal. Mas possui uma cadela, que vivia fungando o cangote do Rodolfinho. Depois a cachorra vem achar ruim...

Andei desesperado. Até chamadinha nos Pequenos Anúncios coloquei. Chamadinha mesmo, porque o preço dessas coisas anda bom não. Reflexos da crise. E Rodolfinho me inventa fugir justo agora! Desnaturado, filho de uma... uma... iguana! Lá se foi a minha companhia nos dias chuvosos, bem ao gosto de Noé; ou nos dias de calor senegalês, cada vez mais frequentes. Saudade de um friozinho norueguês. Quando tem de novo? Ibsen, ajude-nos!

Mas, por que tudo isso? Por que dedicar tantas linhas a um réptil? Ora, ora, é simples: a história de mestre Rodolfo daria um belo roteiro para filme. Como também fariam belos enredos o casal de Poodle que hoje abrigo entre minhas paredes, cada vez menos brancas. Sofia e Cabeça, seus nomes. Ou as dezenas de minúsculos peixinhos Guppy, trazidos duma fazenda, que mantenho num aquário de treze litros.

Aliás, pensando cá com meus botões, bicho e cinema sempre combinaram. Cachorros, porquinhos, veadinhos, leões, lobões e ogros sempre renderam belas fábulas. Dá vontade até de saber alguma coisa sobre a evolução das espécies. Mas sobre isso deixo a palavra para o naturalista britânico Charles Robert Darwin, cujo nascimento deu-se há exatos duzentos anos. É isso aí: o homem passa; os bichos permanecem.

Até a próxima.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O personagem tem que se ferrar!


É isso mesmo: o personagem tem que se ferrar. Ou se ferra no começo, ou no meio ou no fim. Mas se ferra. Antes, durante, depois – sempre! Como na vida. Não que estejamos todos irremediavelmente ferrados; todavia, vá lá, durante nossa existência, algumas ferradinhas sofremos. Se saltarmos das páginas reais para o universo da ficção, aí, bicho, é isso: ferrados são os protagonistas. Todos eles. Não existe enredo ficcional em que o personagem não sofra umas poucas e boas. Ou muitas e ruins, como queiram.

O negócio é tão verdadeiro que pode ser traduzido como a própria natureza do drama. Vejam bem: tem graça assistir a uma peça de teatro ou a um filme em que tudo transcorre às mil maravilhas? A coisa ficaria uma chatice. Daí a necessidade de o autor promover inúmeros obstáculos ao protagonista e peripécias na trama.

Se o cidadão é bonzinho, às vezes acontece dele se ferrar no meio da fábula e, ao final, acabar tudo em bem. Se perverso, o sujeito quase sempre se dá muito mal. Não raramente, com requintes de crueldade, tal e qual suas ações durante o enredo. Os filmes estadunidenses que o digam.

Lembrei-me de uma história das mais conhecidas: a tragédia de Romeu e Julieta, escrita por William Shakespeare. Antes de tudo, é importante que se diga: tragédia, em linhas gerais, é uma forma de drama (ação), cuja definição se deriva do grego antigo τραγῳδία, terminologia composta por τράγος ("bode") e ᾠδή ("canto"). Deu pra entender? É provável que não, mas tudo bem. Características marcantes do advento trágico são a seriedade e a dignidade, frequentemente envolvendo um conflito entre uma personagem e algum poder de instância maior, como os deuses, a lei, o destino ou a sociedade.

Mas espera aí, tem mais. Uma das funções da tragédia, segundo Aristóteles, é revelar o tamanho da queda do herói, causando, desta maneira, terror e piedade no espectador, através do reconhecimento da verdade. Algo mais ou menos assim: “vocês viram o que acontece com quem mata o pai e se casa com a mãe? Sentiram o tamanho da ferrada?”. Pois é, fazer isso é mal sapão, muito mal.

Agora podemos voltar ao Romeu e sua bela Julieta. Ou a Julieta e seu charmoso Romeu. Como neste caso a ordem tanto faz, retornemos, pois: o que acontece com os dois? Com ou sem rima, até mesmo quem nunca leu (ou viu) a história conhece o tenebroso final. E por que o destino de ambos é terrível? Ah, porque nós, os indivíduos, somos emoldurados por convenções sociais, políticas, religiosas. Combinações geradoras de conflitos, que podem atingir a magnitude de uma guerra entre nações ou o simples (simples?) ódio por motivo fútil, entre duas famílias rivais. E aí, ferram-se aqueles que não merecem. Shakespeare sabia disso. Nós também. Exatamente por isso, Romeu, desesperado, profere: “sou um joguete do destino”. Em outras palavras: “ferrei alguém e agora estou ferrado”. Não importam o rouxinol nem a cotovia. Não importa se Julieta é o sol. Ele mesmo está ciente: “devo partir e viver, ou ficar para morrer”.

E como nada muda, alguns são perdoados, e outros, punidos. Parafraseando o imortal bardo inglês: assim o fato se deu, e jamais houve história mais dolorosa que esta de Julieta e seu Romeu.

Até a próxima.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

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a febre no peito
.............................o sufoco
a fome, o desejo

o duplo
..............então...

de maiakóski, a dica:
não destruirão o amor, está provado

...por isso, amo solenemente.

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Um lugar de resistência


Há anos não jogo WAR. Pode parecer um tanto fora de propósito iniciar uma crônica com uma frase assim, mas comentários literários que se prezem costumam partir de ângulos obtusos. Bem, bem, esquecendo imediatamente a geometria, aquele tabuleiro, conhecido como o jogo da estratégia, marcou a minha adolescência. E tenho certeza que a de muita gente. Era bom encontrar os colegas e ficar horas encarando-os com olhos de lince, jogando os dados e conquistando territórios inimigos. Mas os anos se passaram e nem sei o que foi feito daquele jogo. Provavelmente o vendi a algum amigo. Ou pior: subtraíram-me a coisa. Sem permissão, é claro.

O fato é que, com ou sem furto, o tal do WAR era um joguinho legal. Lembrei-me dele outro dia, quando fui obrigado a fazer um trabalho de pós-graduação. A tarefa encomendada por um dos mestres do liceu: assistir a uma película argentina e tecer uma bela crítica. Bacana demais, sô.

Lá fui eu. Catei o DVD com o filme. Seu título: “Kamchatka”. De cara, a palavra que o batiza já soa estranha. E qual é o seu significado? Aí está: é essa a pergunta que o diretor Marcelo Piñeyro (“Plata Quemada”, “Histórias de Argentina en Vivo”) inevitavelmente embute na cabeça do espectador que assiste a esta obra de título incomum.


Ambientada numa turbulenta Argentina de 1976, dias após o golpe militar que depôs a presidenta Evita Perón e colocou no poder o general Jorge Videla, a película de Piñeyro aposta em um protagonista infantil, ao fechar o foco no interrelacionamento de sua família e nos consequentes conflitos pessoais, originados pela violenta mudança política do país.

O mais interessante é que o diretor a tudo emoldura com notável sutileza. O filme conta a história de um casal e seus dois filhos, que se vêem obrigados a se esconder num sítio para escapar da ditadura. Harry, o primogênito, não entende a razão da mudança repentina de Buenos Aires para o interior. Alheio à real situação do país, o garoto irá descobrir inúmeras coisas sobre a vida e sobre si mesmo.

Recheada de particularidades, o roteiro de Marcelo Piñeyro e de Marcelo Figueras fala de coisas singelas, advindas tanto do protagonista quando dos outros personagens que colorem o enredo. Os autores não constroem arroubos dramáticos, quiprocós, pontos de virada que redirecionam a história para além da própria relação familiar. Ao contrário, a intenção se apresenta claramente intimista.

Assim, tudo se transforma em algo grande, memorável, até mesmo o simples ato de pais e filhos, juntos, olharem as estrelas. E talvez esteja aqui a grande mensagem do filme: o ato de resistir, de acreditar, com ternura. Mesmo quando tudo parece por demais difícil.

O filme traz, enfim, ao espectador a sensação de que, em momentos extremos, o que todos precisam é de um lugar de resistência. E a isso ele empresta nome e fixa lugar certo: família. A metáfora está no TEG (a versão argentina do WAR), na última partida que pai e filho disputam juntos, antes do clã se romper, vítima do regime político. Pela primeira vez, Harry consegue dominar quase todo o tabuleiro e conquistar 49 das 50 unidades territoriais em disputa. Naquele dia, o único lugar que não pode ser derrotado foi Kamchatka.

Até a próxima.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

uma flor por uma flor

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....lhana, coisa puríssima
...
.o céu por testemunha
.
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:a flor com a câmera.
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depois, la luna
::antes...
:::durante.....
::::sempre!
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4 (ou 5) momentos cinematográficos inesquecíveis


Dia desses, peguei-me pensando nalgumas cousas, todas elas estranhas. Aliás, quase todo dia isso acontece. Dentre minhas bizarrices, questionei-me: “quais frases pronunciadas em filmes podem ser consideradas inesquecíveis?”. A resposta é fácil: aquelas que a gente não esquece, ora bolas. Por isso, eis que me deleguei o salutar trabalho de compartilhar quatro citações que, no meu parvo entendimento, integram a lista das melhores do cinema. Sem mais delongas, vai a relação cientificamente elaborada (sic), incluindo preciosas rubricas de ação, sem as quais o “momento mágico” não se faria entender:

1. No filme catástrofe “Tubarão”, de Steven Spielberg, Roy Scheider se estupefaz ao ver o barco de Robert Shwall e Richard Dreyfuss, destinado à aventura marítima, que objetiva nada menos que a captura e destruição do grande monstro assassino que assola as águas da região. A frase de Scheider tem o poder da síntese de um gênio, em toda a sua mais absoluta perplexidade: “Acho que vocês vão precisar de um barco maior...”.

2. A ficção científica noir “Blade Runner”, de Ridley Scott, possui daqueles finais maravilhosos. Quanto a isso, todos concordam. Aliás, quanto a tudo neste filme, eu acho. O replicante de Rutger Hauer poderia fazer do Deckard de Harrison Ford picadinho de carne seca – ou melhor, molhada pela chuva –, mas opta por salvar-lhe a vida. O último texto do andróide, segundos antes de apagar (literalmente) é tocante. Com o perdão da memória, a passagem é mais ou menos assim: “Eu tenho visto cousas através das galáxias, por todo esse universo sem fim, que vocês humanos jamais imaginariam, em sua visão limitada. E tudo isso vai se perder, como lágrimas na chuva”. Vale lembrar que na Terra de 2025 a precipitação é ácida – e chove uma barbaridade, em tempo integral.

3. O já citado S.S. (Steven Spielberg) aprontou, no início dos anos 80 do longínquo séc. XX, o bacaninha “ET”. Uma das frases mais conhecidas da sétima arte é aquela proferida pelo homenzinho verde, que possui os contornos de um saca-rolha moderno (ou será o saca-rolha que se parece com ele?). Em sua síntese puríssima, a frase carrega em si a força de um édito filosófico: “ET phone home”. Repitamos: “ET phone home”. Mais uma vez: “ET phone home”. Bonitinho demais.

4. No clássico “Uma Rua Chamada Pecado”, de Elia Kazan, Marlon Brando interpreta ninguém menos que Stanley Kowalski, um dos mais charmosos crápulas da história do cinema. Tentando ser objetivo, nem vou citar Vivien Leigh, Kim Hunt e Karl Marlden vivendo os outros personagens, por mais que mereçam (o Oscar daquele ano que o diga: os três venceram em suas categorias). Ao final do filme, ao pé da escada, Brando dispara a célebre frase de Kowalski: “Steeeeellaaa!!!”.

Encerro com a mais inolvidable de todas as frases fílmicas, proferida há anos pelo bondoso governador da Califórnia, quando ele mal sabia falar: “Hasta la vista, baby”.

Até a próxima.


(domingo, duas da matina, dá nisso... versão resumida de texto que já existe... mas teve baum)

domingo, 28 de junho de 2009

l.a. l.u.n.a.

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desejo,
incompreensão,
..................................... lua, flor, borboleta.
li: "...a noite corrige".

que seja.
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sábado, 27 de junho de 2009

!!
"As esquadras acodem ao porto.
O trem corre para as estações.
Eu, mais depressa ainda,
Vou a ti,
atraído, arrebatado,
pois que te amo."

Maiakóvski
**
*o farol que era um poeta
**

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um caramelo no Rio de Janeiro


O que fazer numa tarde de terça-feira bizarramente fria no Rio de Janeiro? Praia, nem para os gringos! Um café até que pode cair bem. Ou mesmo um doce. Que tal um caramelo? Tentando resolver a questão, lá fui eu a uma sala em Botafogo, em busca da guloseima...

Em “Caramelo” (“Caramel”), filme franco-libanês da diretora Nadine Labaki, o universo feminino é descortinado de maneira curiosa e, por vezes, hilariante. No enredo, cinco mulheres revelam-nos seus anseios e expectativas, invariavelmente ligados a seus relacionamentos. Quatro delas trabalham num salão de beleza em Beirute. À exceção da mais velha, que sonha tornar-se atriz de comercias para a tevê e vive dando palpites na vida das amigas, as outras três vivem momentos de grande impasse amoroso: a belíssima cabeleireira protagonista – interpretada pela própria diretora – é amante de um homem casado, que não consegue livrar-se da esposa, deixando-a sempre a escanteio. Atordoada, a cabeleireira-manicure se submete a atender a cônjuge de seu amante na própria residência do casal, sem que o homem saiba, provocando em si mesma aquela sensação humilhante, que todos passam algum dia, quando se apaixonam pela pessoa errada. Enquanto isso, o tímido e simpático policial que monta ronda pelas redondezas do salão está loucamente apaixonado pela moça, sem que ela lhe dê a menor atenção. Nadine leva-nos a pensar que geralmente as coisas são assim: aqueles que valem a pena nunca recebem a devida atenção. Já os crápulas... Apesar disso, existe esperança para a cabeleireira e o policial. Afinal, tudo pode mudar. De beleza estonteante, a atriz-diretora hipnotiza, seduz e convence em seu papel.

A segunda protagonista vive um seriíssimo (assim mesmo, com dois “is”) problema árabe: vai se casar, mas já deixou de ser donzela. Pior: o noivo desconhece por completo o fato. E mais: o cara é esquentadinho, adora brigar por qualquer coisa. A solução? Visitar em segredo uma clínica ginecológica e dar uns pontinhos... Será?

A terceira cabeleireira passa por situação igualmente peculiar: começa a perceber-se interessada por uma de suas clientes. A descoberta da sexualidade. Aos poucos, as trocas de olhares intensificam-se, abrindo possibilidades entre as duas. É simples e inteligente como a diretora sugere ao espectador – ou deixa-o a pensar – o que poderá se passar entre elas. E essa é exatamente a imagem do filme que antecede os créditos finais e que, talvez, traga em si o estado emocional predominante da película.

A única personagem feminina que não habita os domínios do salão, mas o visita enquanto cliente, é uma solitária costureira, na terceira idade, que acaba conhecendo um elegante senhor, ao ajustar-lhe o terno. Mais uma vez, a libanesa Labaki consegue colocar-nos dentro do filme, ao compartilhar conosco o sentimento da personagem: o medo de um relacionamento, quando a pessoa acredita já “ter passado” da idade para isso.

Se apenas beleza não põe mesa, graça e talento juntos montam uma casa inteira! A jovem diretora-atriz, em seu filme de estréia, mostra sensibilidade e faro narrativo. A complexidade da natureza feminina, campo pouco conhecido para a maioria dos diretores de cinema – e para quase todos os homens! – aparece aqui, recheada de sentimento e força, com notável segurança. Pode ser que Nadine Labaki revele alguma influência de Pedro Almodóvar, sobretudo nas cenas cômicas – e isso não seria fora do lugar, uma vez que o espanhol nascido em Calzada de Calatrava, Cuidad Real é dos poucos diretores na ativa que tem coragem e estilo, ao abortar o sempre tão incompreensível universo feminino.

Até a próxima.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

O dia em que conheci Clint Eastwood



Houve um menino que um dia assistiu a um filme de faroeste. Acompanhado do pai, o menino não entendeu muito bem do que se tratava aquela confusão toda: tiros pra todo lado, chapéus voando, gente correndo, cavalos galopando, bombas explodindo. Mas, mesmo sem compreender o motivo, o menino colou os olhos na tevê Phillips que parecia de madeira, com aquele enorme botão seletor de canais e a tudo assistiu. Ficou deslumbrado. Depois vieram outros filmes do gênero, todos com o pai a tiracolo (ou seria ele que nestas horas não se desgrudava do velho?).

Aquele primeiro filme, entretanto, ficou na cabeça do menino. Passou a fazer parte do imaginário de criança. O título ajudava à beça: “O Bom, o Mau e o Feio”. Até brincadeira com os dois irmãos gêmeos, um ano mais novos, o menino fez: um seria bom, o outro mau e o último feio. Era aí que residia o problema: nenhum dos três queria ser feio. Aliás, ninguém nunca quer ser feio. Nos jogos de criança – e, lamentavelmente, na vida de muitos adultos –, ser mau é um barato. Dá até status. Mas feio, nunca! E assim, aqueles meninos eram três crianças em conflito...

Naquele filme, o que mais despertou a atenção do menino foi exatamente aquilo que deveria despertar: o bom, é claro. Na verdade, bom é maneira de dizer, porque de bonzinho o personagem nada tinha. Não era o vilão, isso era certo, como também o feio não tinha esta função. O feio era apenas tosco. O bom era apenas justo, à sua maneira. É isso que vale, sempre: tentar ser justo.

Para complicar o entendimento do menino, o bom era personificando por um sujeito de nome estranho, que mais parecia marca de algum produto importado. Mesmo assim, o menino virou fã do cara. Foi crescendo e assistindo a tudo o que podia encontrar daquele sujeito. Os faroestes eram imprescindíveis: “Por um Punhado de Dólares”; “A Marca da Forca”; “O Estranho sem Nome”; “Josey Wales”.

O menino ficou adulto. Deu um monte de cabeçadas na vida – acertou nalgumas delas e errou numa porção de coisas. Continua errando. Mas aquele sujeito de nome estranho permanecia inspirando o ex-menino a tentar enxergar o mundo, mesmo com as dificuldades inerentes a quem sem mete neste processo. O adulto agora acompanhava o cara como ator, diretor, produtor, prefeito (!) de uma cidadezinha chamada Carmel, na Califórnia, e o mais que fosse. Vários filmes se seguiram à frente dos olhos do adulto: “Magnum 44”; “Alcatraz”; “Raposa de Fogo”; “Escalado para Morrer”; “Dirty Harry”; “O Destemido Senhor da Guerra”; “Os Imperdoáveis” (olha o faroeste de novo aí!); “Um Mundo Perfeito”; “As Pontes de Madison”; “Crime Verdadeiro”; “Cowboys do Espaço”; “Dívida de Sangue”; “Sobre Meninos e Lobos”; “Menina de Ouro”; “A Conquista da Honra”; “Cartas de Iwo Jima”; “A Troca”.

Veio, enfim, o mais recente: “Gran Torino”. O adulto, que um dia foi o menino fã dos filmes de velho oeste, que descobriu gostar de cinema um bocado, finalmente confirmou o que já sabia: aquele cara durão de nome estranho era mesmo um artista sublime. E isso todos já o sabem. Quando alguém atinge determinada capacidade de discurso, de síntese, é porque tem o que dizer. E para dizer alguma coisa sobre a vida, sobre os outros, é preciso conhecer a si mesmo. É preciso fazer as coisas com simplicidade. E mesmo quando tudo parecer pesado demais, caótico ao extremo, devemos ser leves. Ou, pelo menos, tentar sê-lo. Como o personagem Walt Kowalski no final do filme. Talvez um dia a gente aprenda...

Salve Clint Eastwood!


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Chamem o Wall-E!


Fiquei estupefato quando soube que a maioria dos municípios mineiros (mais de 60%) despeja toneladas e toneladas de lixo a céu aberto, em intermináveis lixões. Nem é preciso ser douto no assunto para saber o mal isso acarreta. Bem a propósito, é deveras curioso como a gente ainda se espanta com aquilo que há tempos já conhecemos. Talvez a perplexidade venha exatamente disso: da constatação de que o tempo passa e pouco se muda. E olhem que estamos vivendo um momento histórico, em que o assunto mais reincidente é o tratamento que os seres humanos deram (e dão) ao planeta. Com o perdão do trocadilho, muita coisa boa vai para o lixo, enquanto a imundície moral permanece infiltrada em nosso cotidiano, entulhando os diversos setores da sociedade.

Por conta deste execrável tratamento milenar, que os seres conhecidos como inteligentes dispensam à nossa pequena bolota azul, o tema “fim do mundo” é coisa que preocupa às pampas. E é exatamente por incomodar tanto que vende à beça. Revistas, livros, músicas, peças de teatro, filmes e tudo o mais que pensadores inconformados com a realidade calham produzir. É bom que produzam. É bom que vendam. É bom que compremos. Seria excelente se algo de bom surgisse, deste ciclo produtivo. Que tal a simples consciência de que cada um deve fazer a sua parte?

Em “Wall-E”, 9º longa-metragem de animação da Pixar – que obteve estrondoso e merecido sucesso no ano passado –­, o diretor Andrew Stanton (o mesmo de “Procurando Nemo”), discorre exatamente sobre o tema. Através do incansável trabalho do mais simpático robozinho da história do cinema, travamos contato com uma Terra futura, sem vegetação, devastada pelo lixo. Por conta disso, os seres humanos foram obrigados a abandonar o planeta, indo habitar o espaço. Após séculos de trabalho diário do solitário robozinho – que tem por missão a coleta, seleção e compressão do lixo –, cuja amizade reside apenas numa barata (aliás, baratas, que nadam de braçada nos lixões, poderiam também habitar a mente dos canalhas – o mais perfeito dos lixos), eis que nasce uma plantinha. Surge a esperança.

O nome do robozinho é abreviatura para “waste allocacion load lifter earth class”. No português, algo como “localizador e coletor de lixo classe terrestre”. Diga-se de passagem: existe lixo que não seja de classe terrestre? Existe porcaria que não seja feita exclusivamente por humanos? Só mesmo a pureza de um Wall-E pra dar conta de tanta sujeira...

Dia desses, fui ao cinema assistir a um troço cujo título é “Presságio” (“Knowing”). Dirigido por Alex Proyas e encabeçado por Nicolas Cage, a película fala do fim dos tempos. Apesar de tenebrosamente ruim, o que apresenta de diferente, em relação a outras histórias do gênero catástrofe, é que o mundo acaba mesmo. Não há mocinho ou beldade que o salve, pois tudo aqui reside na vontade do Sol, o astro-rei, o dono desta galáxia.


Interessante perceber que até mesmo obras absolutamente inclassificáveis podem proporcionar alguma reflexão. Somos tão pequeninos e, ainda assim, julgamo-nos tão donos de tudo. A Terra não é nossa; fazemos parte dela. Apenas isso. Sem consciência, respeito e atitude, as gerações futuras não verão coisa melhor que o mundo do nosso amiguinho coletor de lixo.

Até a próxima.


terça-feira, 21 de abril de 2009

Dramática [2]


Rincão do Céu (García Lorca)

A estrela
velha
fecha seus olhos turvos.

A estrela
nova
quer azular
a sombra.

(Nos pinhos do monte
há vagalumes.)


[Para Gabi]

segunda-feira, 23 de março de 2009

Tudo a ver, ora bolas!


Elegeram Angelina Jolie a mamãe mais sexy do mundo... Uau, que bacana! Após meses de afastamento e de engorda braba, Ronaldão voltou a campo e tratou de fazer rapidinho dois gols... Que jóia, que fenômeno! Mudaram as regras de pontuação da Fórmula 1, deixando-a com critérios pouco esportivos para se definir o campeão... Que legal, chique demais!


Pois é, e o que a gente tem a ver com tudo isso? Absolutamente nada, ora bolas! Em compensação, o que temos a ver com a roubalheira de “integrantes” do TRT-MG e do TCE-MG? O que temos a ver com as pilantragens de deputados que até castelos de contos de fada possuem? O que temos a ver com os prefeitos cassados por atos ilícitos e com outros tantos políticos que estão em vias de sê-lo? Absolutamente tudo, pombas! A culpa, em parte, é muito nossa. Afinal, somos o povo. El pueblo, ¡cuño! Em se tratando dos políticos, nomeados por eleição, o povo é o culpado. Democracia exige caráter, cobra responsabilidade, inclusive no ato de votar.

Na Argentina, por muito menos (ou por muito mais, ou por qualquer coisa) fazem “panelaço”, saem às ruas, quebram o pau. Já o brasileiro, que ótimo, faz piada. E achamos um barato o nosso senso de humor. Também, o que esperar de um povo que, há décadas, assiste sistematicamente o novelão? Pior: o que esperar de uma nação que delira com programas de auditório em rede nacional capitaneados por apresentadores medíocres, vomitando assuntos imbecis?

No balanço final, uma grande tristeza. Difícil esperar algo verdadeiramente bom do Legislativo e do Judiciário. Difícil também esperar que nós, o povo, um dia levantemos a voz.

Por isso mesmo, é de enaltecer quando artistas legítimos – clássicos formadores de opinião – utilizam-se do talento para bradar contra os tumores sócio-político-econômico-religiosos que apodrecem o mundo. São como icebergs flutuando num mar de lama. Um livro como “Terceira Residência”, de Pablo Neruda, por exemplo. Uma tela como “Guernica”, de Pablo Picasso. Um filme como “Leões e Cordeiros”, de Robert Redford. Obras fundamentais, que tratam, cada qual à sua maneira, de um assunto recorrente: a guerra. E assim o fazem porque discutem a grande bestialidade humana. É preciso que soltemos um sonoro “basta!” contra todo o tipo de violência. É igualmente necessário que levantemos as mãos e acenemos contra qualquer ato de corrupção e jogatinas ilícitas daqueles que têm como função estabelecer e preservar as leis.

Neste contexto, um filme como “Milk – A Voz da Igualdade” também se faz essencial. O diretor norte-americano Gus Van Sant (“Elephant”, “Paranoid Park”, “Drugstore Cowboy”) acerta a mão e o olhar ao trazer à baila o moralismo hipócrita que tentou combater as transformações sócio-culturais das décadas de 1960 e 1970. O filme revela as texturas e os matizes do preconceito, que desumaniza qualquer sociedade. Através do cidadão Harvey Milk – em magistral interpretação de Sean Penn – temos um exemplo para as minorias (e maiorias), por sua luta e obstinação, que lhe custaram a vida. A última fala de Milk descrita no roteiro define com primazia o caráter do personagem e a lição do dia. Algo assim: “Eu não faço política por ego ou por poder, mas por acreditar que precisamos lutar contra o preconceito e por acreditar que as minorias têm os mesmos direitos que os demais”. É isso aí, bicho.

Até a próxima.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

De velho e louco todo mundo poderia ter um pouco...


A ideia de nascer muito velho e rejuvenescer com o passar dos anos até que é muito boa. Mas desde que a velhice venha carimbada apenas no físico, deixando a mente e o espírito verdes e livres para a aprender. Imaginem anciãos brincando de carrinho no quarto enquanto crianças discutem na sala a crise mundial. Agradável bizarrice! No mínimo, promoveria mudanças radicais no relacionamento entre os ditos seres humanos, posto que no mundo sempre houve aqueles que são qualquer coisa, menos humanos.

Agucemos a visão: se as crianças de mente adulta governassem o mundo, muita coisa desgraçadamente ruim deixaria de existir. Ou, pelo menos, diminuiria na medida de noventa por cento, daí para mais. Criminalidade, violência, ganância, traição, luxúria, programas de auditório, telenovelas, Big Brother Brasil e os políticos não teriam vez. É bem provável que até a fome se extinguisse.

No extremo oposto, se bebês estivessem nascendo já com os sintomas físicos da senilidade, não teríamos as aposentadorias miseráveis que a maioria dos idosos deste país recebe. Afinal, estariam acabando de nascer. Velhos, é verdade, mas recém nascidos. Também não haveria o descaso. Nesta evolução biológica às avessas, durante a chamada “fase adulta”, todo cidadão ainda seria velho. Por conseguinte, a idiota necessidade que muitos representantes do sexo masculino têm de se mostrar providos de litros de testosterona não existiria. A Terra, desta maneira, gozaria de mais fraternidade e menos discórdia.

Por tudo isso e mais um tanto, é de se lamentar que estes fatos só existam no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” e no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald escrito em 1920, que deu origem ao petardo cinematográfico estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett. O controverso diretor David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “Zodíaco”) parece ter, com esta obra, mudado seu foco. Melhor: suspeita-se ter redimensionado sua perspectiva. Classificado outrora como sanguinolento e pouco generoso com seus protagonistas, Fincher agora ressurge carregando a alcunha de “bom moço”, filosoficamente preocupado com o passar do tempo e com a inevitabilidade do destino, cujo fim que se revela idêntico a todos. Aliás, o atroz correr dos anos não é tema inédito aos grandes artistas. Basta citarmos dois: o cineasta sueco Ingmar Bergman e o dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Ambos tinham uma profunda e inesgotável fixação no tema, que parecia nunca abandoná-los.

Tem mais. Continuemos imaginando: além de nascermos velhos, poderíamos também vir ao mundo ligeiramente loucos. Mas, vejam bem, acometidos todos de uma loucura branca, angelical, distante da vilania que assola alguns lunáticos como, por exemplo, canalhas da estirpe de um George W. Bush. Felizmente, para o regozijo de seis bilhões de seres humanos (lembrando que alguns estão muito mais para desumanos), o cretino colherá agora o legado que merece: o esquecimento, recheado com a sua colossal mediocridade.

Seríamos, enfim, um bando interminável de bípedes e mamíferos felizes. Os jovens cuidando dos velhos. Enquanto uns envelheceriam de juventude, outras rejuvenesceriam de velhice.

Até a próxima.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

De volta ao Holocausto


Enquanto Israel varre do mapa a cidade de Gaza e seus arredores, numa guerra religiosa bestial contra o Hamas (aliás, qual guerra não é estúpida?), o tema “2ª Guerra Mundial” retorna com impacto às telas de cinema mundo afora. A guerra, inclusive, sempre foi um dos assuntos mais visitados pela Sétima Arte, sobretudo a bestialidade promovida pelo lunático ex-cabo de infantaria Adolf Hitler e seus aliados, na primeira metade do séc. XX. Obras de quilate diamântico sobre este lamentável momento histórico foram produzidas a rodo nestes 113 anos de atividade cinematográfica. Basta citarmos alguns petardos recentes: os espetaculares filmes gêmeos bivitelinos “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, do cada vez melhor Clint Eastwood, no alto de suas vigorosas 78 primaveras (fará 79 no dia 31 de maio, com a graça de Deus); o excelente “O Pianista”, do franco-polonês Roman Polanski; o impressionante “Stalingrado, a Batalha Final”, do alemão Joseph Vilsmaier; o instigante “Círculo de Fogo”, do cultuado Jean-Jacques Annaud; além de “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, ambos do célebre diretor norte-americano nascido em Cincinnati, Ohio, de nome Steven Spielberg.

Pois é. Tomando como base apenas estes títulos produzidos nas últimas duas décadas, podemos perceber o quanto a 2ª Guerra movimenta emoções, desejos e necessidades dos cineastas de calibre. O Holocausto nazista foi uma das mais terríveis passagens da história. Continuará gerando estudos e discussões durante décadas (talvez séculos), visando um objetivo primordial: que a magnitude do mal não se repita.

É certamente com este propósito que, pelo menos, três grandes produções andam circulando as salas de cinema mundiais, inclusive as tupiniquins. Uma delas interessa de perto o povo brazuca. Primeiro, pelo fato de o diretor ter nascido sob a bandeira verde amarela (xiii, e agora, com a extinção do hífen: é junto ou separado? Professor Pasquale, me ajude!); segundo, por este mesmo cidadão ter aprontado um belíssimo filme. “Um Homem Bom” (no título original: “Good”), dirigido por Vicente Amorim – filho do ministro Celso Amorim –, estrelado por Viggo “Aragorn” Mortensen e Jason Issacs, é daqueles filmes pungentes e esclarecedores, na medida em que revela que parte da sociedade alemã realmente não sabia das intenções diabólicas de Hitler. Até representantes da ala intelectual germânica desconheciam a existência dos campos de extermínio durante a guerra. Viggo está primoroso como o professor universitário que escreve um livro cujo personagem principal comete eutanásia. O livro cai nas mãos de ninguém menos que o próprio Führer, que o coloca na condição de obra exponencial da “nova sociedade ariana”, em 1937. Issacs, dando vida ao psicanalista judeu contrário às idéias ultranacionalistas que começavam a se expandir, comove.

Outros dois filmes em cartaz também não decepcionam. “O Menino do Pijama Listrado” (“The Boy in the Striped Pyjamas”), de Mark Herman, narra a amizade entre dois garotos: um judeu, prisioneiro de um campo de concentração, e um alemão, filho do comandante deste mesmo campo. Daí, imaginem vocês as consequências (sem trema)...

Já “Operação Valquíria” (“Valkyrie”), dirigido por Bryan Singer e estrelado por Tom Cruise, fala do real (e fracassado) atentado liderado pelo Cel. Claus Schenk Graf von Stauffenberg, visando matar o demônio Hitler, em 20 de julho de 1944. Deu errado, tanto na história quanto no filme. Uma pena... E salve os homens de boa vontade.

Até a próxima!

Este filme é pra quem gosta de música: "Habana Blues"

Muchachitos, se no Brasil ganhar a vida com música já é difícil, imagina em Cuba...

Saravá.

sábado, 10 de janeiro de 2009

A infidelidade dos répteis


Meu iguana fugiu. Ingrato. Rodolfo, o nome dele. Pensar que o alimentei desde bebê, dando-lhe todos os insetinhos que gostava... Quando o recebi, tinha o tamanho de um calango. Um ano depois, parecia um estrangeiro, recém chegado de Galápagos. O bicho era enorme! Por isso mesmo, as crianças do prédio o adoravam. Fim de semana, lá ia o papai radiante com Rodolfinho na coleira. Dá pra acreditar? Saía com ele à base de coleira. Forte, o bicho; dava solavanco. Primeira vez que a meninada o viu, foi inesquecível. “Alá, mãe, alá: um jacaré! Um jacaré!”. O guri ficou todo arrepiado, seus olhos esbugalharam. E ele ainda fazia: “Uh, uh, sai pra lá, jacaré!”. Teve outro moleque, menorzinho, que disparou: “nó, que largatixão!”. Assim mesmo: largatixão, com o “r” fora do lugar.

Rodolfo era educado. Silencioso que só ele. E o melhor: asseado feito galã de novela da Globo, com apartamento na Barra. Ou no Leblon. É isso mesmo: não confundi asseado com assediado; é proposital. Ou alguém duvida que os atores bonitões estejam sempre limpinhos? Pois é, meu iguana jamais fazia suas necessidades biológicas fora de sua “terrinha” – um caixotão enorme de madeira estrategicamente revestido de areia, com umas plantinhas, uns pedregulhos e um laguinho. Só não tinha peixe. Tudo pra deixá-lo “em casa”. Vez em quando lhe dava um surto e ele mexia o rabo – gigantesco! -, fazendo voar areia até as cucuias. Acho que foi por isso que a minha free lancer o deixou escapar – se não foi ela, fui eu. Será que a culpa é minha? Mas como é possível um jacaré fugir de um apartamento, sem ser visto por um mísero ser humano? Falar a verdade, uma lebre me diz que ele ainda se encontra pelas redondezas, se fazendo de bobo. Vai ver se enrabichou pela cachorra da vizinha. Não me entendam mal: a vizinha não é uma cachorra. Ao contrário, demonstra ser muito certinha e ajuizada. Tem namorado sério e tal – uma pena, enfim. Mas possui uma cadela, que vivia fungando o cangote do Rodolfinho. Depois a cachorra vem achar ruim...

Estou desesperado. Até chamadinha nos Pequenos Anúncios já coloquei, na tentativa de encontrá-lo. Chamadinha mesmo, porque a crise oriunda do Tio Sam já bateu descaradamente aqui na porta. Sem pedir licença nem desculpa. E o Rodolfo me inventa de fugir justo agora! Desnaturado, filho de uma... uma... uma iguana! Lá se vai minha companhia nos dias chuvosos, bem ao gosto de Noé; ou nos dias de calor senegalês. Saudade de um friozinho norueguês. Quando tem de novo?

Negócio anda feio. Tentando aplacar a solidão devastadora que se instala à noite, desbotando as cores do dia, fiz inscrição num destes sites de relacionamento. Sob pseudônimo, é claro, pois detesto autoexposição (e agora, com o tal acordo ortográfico imbecil elaborado por panacas à toa, fica assim?). Pois é, me cadastrei numa página - que me prometeu o amor da minha vida -, em busca de uma simples mulherzinha. Uma só, umazinha. Já está bom. Vejam como a carência transforma o homem num enorme inseto; soca no ralo sua autoestima (putz, ó a inhaca da grafia de novo aí). Sujeito aqui, da melhor estirpe latin lover, com traços explícitos de Armand Assante e Antonio Banderas, apelando assumidamente pra internet. Cuño, mulher nunca foi problema, mas ultimamente anda parecendo mercadoria em falta, aqui na Capital das Alterosas. Ou sou eu que perdi o feeling? Morris Albert, me ajude... E olha que internet pra mim sempre foi ferramenta secundária: nunca tive orkut, não uso MSN, mal respondo meus e-mails particulares – só aqueles de natureza profissional. E agora aqui estou, cadastrado num site, em busca de um belo espécime do sexo oposto. Vontade de chorar. Lágrimas de jacaré.


Se bem que, na vida, algumas experiências são deveras fortificantes. Comprovar que a mulherada anda mais desesperada que os machos de plantão dá um certo alento a estes mesmos machos, naturalmente. Se forem muito exigentes, entretanto, os machos continuam chupando o dedo, com doses cavalares de testosterona... Senhoras e senhores: para a minha estupefação, a quantidade de mulher atrás de homem não está no mangá (muito menos no gibi). Sobretudo aquelas que procuram... sexo! E casadas! É isso aí, amiguinho. Mulheres comprometidas que procuram relacionamento sem compromisso ou – como opção menos explícita, mas com o mesmíssimo propósito - para “encontro casual/diversão”. Sinal dos tempos. Sobram-se fêmeas na praça por falta de machos? Sobram-se homens por que faltam mulheres? Garotas? Rapazes? Belo Horizonte e San Francisco: há alguma semelhança?

A esperança é a última que bate o pacau - dizem aos borbotões desde priscas eras. Por isso sigo aqui, na humilde esperança de encontrar representante do sexo feminino que preencha meus anseios cavalheirescos de notória fidalguia. Sei não. Mais fácil entrar na era do “encontro casual/diversão” e descobrir uma legítima filha de Eva, para presentear-lhe com inúmeras maçãs suculentas. Cruzes, agora eu exagerei na tinta. Apelei feio!

Tudo isso por conta do Rodolfo, aquele safado. Ingrato duma figa. Mas tem nada não, já sei o que vou fazer: amanhã compro um papagaio. Já sei até o nome: Rodrigo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Dramática [1]


García Lorca:

"O mundo está imobilizado diante da fome que extermina os povos. Enquanto houver esse desequilíbrio, o mundo não poderá raciocinar. Vi isso com meus próprios olhos. Dois homens que se vão à margem de um rio. Um é rico; o outro, pobre. Um com a barriga cheia e o outro que enche o ar com seus bocejos. E o rico exclama: 'Oh, que lindo barco vai passando! Veja essa flor na margem do rio!'. O pobre só pode balbuciar: 'Estou com fome, não vejo nada'. Naturalmente. No dia em que a fome desaparecer, haverá no mundo a maior explosão espiritual que a humanidade tenha jamais visto. É difícil imaginar a alegria que brotará nesse dia".

Lorca deu este depoimento na década de 1930. Parece que foi ontem. Que o mundo, um dia, aprenda.

P.S.: Saudações, Harold Pinter. Tua obra permanece.