segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma cro-cro-crônica

Outro dia mesmo fui ao Grande Teatro do Palácio das Artes assistir à peça “Chico Rosa”, escrita e dirigida por Jair Raso. Era a terceira vez que assistia ao espetáculo desde a sua estréia, alguns anos atrás. Bela montagem, bons intérpretes, texto inteligente e muito boa música! O centenário de Noel Rosa, ocorrido em dezembro do ano passado, proporcionou o retorno aos palcos e a estréia de espetáculos, shows e homenagens país afora. E mais importante: permitiu uma revisitação à obra de Noel, um dos grandes gênios na música brasileira.

Dentre as ótimas músicas de Chico Buarque e Noel Rosa executadas na peça, estava o samba “O Gago Apaixonado”, composta por Noel em 1931. Na letra, logo no início, o sujeito fala: “eu de nervoso tô fi-ficando gago”. A música eu já conhecia, mas nunca havia parado para escutá-la. Saí do teatro, cheguei em casa, procurei no youtube, pus pra tocar e botei reparo. Genialidade do mestre Noel: canção divertidíssima, com letra, ritmo e melodia excelentes.

O que acontece com o gago é isso mesmo que o samba diz: quanto mais nervoso, mais gago. Fiz pesquisinha breve na Internet e descobri que a gagueira atinge cerca de 75% das crianças entre dois e quatro anos, quando estão começando a pronunciar as palavras. Eu mesmo, em fase de garoto e na adolescência, gaguejava às pampas. Esta desordem na fala, entretanto, costuma durar pouco nas crianças, coisa de meses. Mas, se a pessoa torna-se adulta gaguejando em demasia, aí é quase sempre necessária uma ajuda terapêutica.

É exatamente este o pretexto do filme “O Discurso do Rei” (“The king’s speech”, Reino Unido, 2010). O filme do diretor Tom Hooper revela a dificuldade do rei inglês, George VI, pai da atual rainha Elizabeth, em falar. Gago ao extremo e desesperançoso quanto a solução do seu problema, o rei precisa urgentemente encontrar alguém que o ajude, sobretudo porque a 2ª Guerra Mundial está em vias de começar e o monarca tem a obrigação de fazer um enorme discurso pelo rádio, para toda a nação.

É grande a aflição causada pelo filme. Mesmo antes de assumir o trono, o nobre tem lá suas obrigações de falar em público – e a coisa sai sempre muito mal. Daí o fato de o monarca passar a ter aquela constante sensação de que não foi feito para reinar. Desta dúvida nasce uma das reflexões do filme: para se tornar um bom governante, é preciso mais que oratória invejável. É preciso caráter. E isso o rei demonstra ter de sobra.

Outro aspecto reflexivo da película fica por conta da questão da discriminação: se o cara não pertencesse à família real, seria gradativamente enjeitado do convívio social, como se fosse portador de algo contagioso.

A direção de Tom Hooper, as interpretações de Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush e demais atores, aliadas aos outros elementos fílmicos, resultam em uma obra instigante e necessária, especialmente hoje, quando ironizar os defeitos alheios é muito mais comum que tentar compreendê-los.

Até a próxima.