O objetivo é simples, embora audacioso: a tentativa de relatar, analisar, discutir, confrontar, criticar e respeitar tudo aquilo que permite admiração ou repulsa nos sons, nas telas, nos palcos e nos livros da vida.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Terapêutica planetária
Pelas páginas do jornal, pela tela do computador, pelo informativo da rádio, pelo noticiário da tv, pela janela do escritório e pela torneira da cozinha fico sabendo que a economia mundial está em crise. Segundo analistas de plantão, uma das piores – senão a pior – crise desde o crash da bolsa de 29. Pensar que andei gastando meu dinheirinho com umas bobaaagens... Previsão de juros altos e alguma inflação pela frente. Previsão da vitória de Obama ou de McCain lá, no hemisfério de cima; de Lacerda ou de Quintão aqui, na cidade horizontina. É como já dizia Nelson Rodrigues: “batata”. Ou seja, previsões inteligentíssimas, com 100% de acerto.
Tenho pensado coisas estranhas ultimamente. Parece-me que o mundo anda sofrendo de um certo transtorno afetivo bipolar. Não sou psicólogo, mas sei que o transtorno bipolar é uma doença relacionada ao afeto, que se caracteriza por alterações do humor, com episódios depressivos e maníacos ao longo da vida. Doença crônica, de proporções mundiais, acomete cerca de 1,5% da população deste planeta. Opa, que tolice o final desta última frase. É claro que se trata deste planeta. Mesmo porque não posso falar de outro, uma vez que só conheço este, habitado e, ainda, habitável.
Pois é, o mundo anda bipolar. Tomando a economia e o clima como exemplo, fica fácil perceber as mudanças bruscas de humor. Num dia, vem o dólar e fecha a R$ 2,52. Noutro, cai a R$ 2,18. E no seguinte, sobe a R$ 2,41. Falta de graça. E o clima? Segunda-feira estamos no verão; terça-feira no inverno; quarta-feira voltamos ao verão; quinta-feira já é outono e na sexta-feira novamente chega o inverno. É isso mesmo, o mundo anda sofrendo pela falta de afeto dos seres “pensantes” que nele habitam. Ou pior. Anda sofrendo pela falta de amor-próprio.
Como não podia deixar a peteca cair, tratei de procurar no cinema algum filme que pudesse me devolver a esperança na terapia para salvação do planeta. Abro o jornal e vasculho o roteiro dos filmes em cartaz, na expectativa de encontrar aquele que se encaixe na premissa. Rabisco um filme detestável aqui, circulo uma mera possibilidade acolá. E eis que encontro um título. A tradução, na língua de Camões, que agora deverá ser uma só: “A Caçada”. O original, na língua de Shakespeare, que mundão afora fala de tudo quanto é jeito: “The hunting party”. O filme é dirigido por Richard Shepard, o mesmo diretor de “O Matador” e “24 Horas para Morrer”. Pelos títulos de seus filmes, podemos esperar, no mínimo, alguns banhos de sangue... No elenco, o astro Richard Gere. Nunca fui seu fã, nem um pouco, mas vá lá. A minúscula sinopse desperta alguma curiosidade: “um telejornalista e seu cameraman investigam o paradeiro de um criminoso de guerra”. Taí, isso aí precisa ser falado. Lá fui eu.
Finalizada a sessão, concluo que não se trata de uma obra espetacular, mas que cumpre a sua função. Não me renovou os ânimos planetários; ao contrário, acentuou minha indignação em relação ao cenário político mundial.
Ao falar da guerra da Bósnia, Shepard deixa no ar aquilo que, de alguma maneira, já sabemos. Como é que a ONU, a OTAN, os USA e outros não encontram há anos um criminoso que um jornalista encontrou em três dias? Deixo a resposta para o Bush. Ou para o Bin Laden. Afinal, tudo não passa lamentavelmente de um jogo de interesses.
Até a próxima!
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