segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O personagem tem que se ferrar!


É isso mesmo: o personagem tem que se ferrar. Ou se ferra no começo, ou no meio ou no fim. Mas se ferra. Antes, durante, depois – sempre! Como na vida. Não que estejamos todos irremediavelmente ferrados; todavia, vá lá, durante nossa existência, algumas ferradinhas sofremos. Se saltarmos das páginas reais para o universo da ficção, aí, bicho, é isso: ferrados são os protagonistas. Todos eles. Não existe enredo ficcional em que o personagem não sofra umas poucas e boas. Ou muitas e ruins, como queiram.

O negócio é tão verdadeiro que pode ser traduzido como a própria natureza do drama. Vejam bem: tem graça assistir a uma peça de teatro ou a um filme em que tudo transcorre às mil maravilhas? A coisa ficaria uma chatice. Daí a necessidade de o autor promover inúmeros obstáculos ao protagonista e peripécias na trama.

Se o cidadão é bonzinho, às vezes acontece dele se ferrar no meio da fábula e, ao final, acabar tudo em bem. Se perverso, o sujeito quase sempre se dá muito mal. Não raramente, com requintes de crueldade, tal e qual suas ações durante o enredo. Os filmes estadunidenses que o digam.

Lembrei-me de uma história das mais conhecidas: a tragédia de Romeu e Julieta, escrita por William Shakespeare. Antes de tudo, é importante que se diga: tragédia, em linhas gerais, é uma forma de drama (ação), cuja definição se deriva do grego antigo τραγῳδία, terminologia composta por τράγος ("bode") e ᾠδή ("canto"). Deu pra entender? É provável que não, mas tudo bem. Características marcantes do advento trágico são a seriedade e a dignidade, frequentemente envolvendo um conflito entre uma personagem e algum poder de instância maior, como os deuses, a lei, o destino ou a sociedade.

Mas espera aí, tem mais. Uma das funções da tragédia, segundo Aristóteles, é revelar o tamanho da queda do herói, causando, desta maneira, terror e piedade no espectador, através do reconhecimento da verdade. Algo mais ou menos assim: “vocês viram o que acontece com quem mata o pai e se casa com a mãe? Sentiram o tamanho da ferrada?”. Pois é, fazer isso é mal sapão, muito mal.

Agora podemos voltar ao Romeu e sua bela Julieta. Ou a Julieta e seu charmoso Romeu. Como neste caso a ordem tanto faz, retornemos, pois: o que acontece com os dois? Com ou sem rima, até mesmo quem nunca leu (ou viu) a história conhece o tenebroso final. E por que o destino de ambos é terrível? Ah, porque nós, os indivíduos, somos emoldurados por convenções sociais, políticas, religiosas. Combinações geradoras de conflitos, que podem atingir a magnitude de uma guerra entre nações ou o simples (simples?) ódio por motivo fútil, entre duas famílias rivais. E aí, ferram-se aqueles que não merecem. Shakespeare sabia disso. Nós também. Exatamente por isso, Romeu, desesperado, profere: “sou um joguete do destino”. Em outras palavras: “ferrei alguém e agora estou ferrado”. Não importam o rouxinol nem a cotovia. Não importa se Julieta é o sol. Ele mesmo está ciente: “devo partir e viver, ou ficar para morrer”.

E como nada muda, alguns são perdoados, e outros, punidos. Parafraseando o imortal bardo inglês: assim o fato se deu, e jamais houve história mais dolorosa que esta de Julieta e seu Romeu.

Até a próxima.

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