domingo, 28 de março de 2010

E a cultura foi pras cucuias...

Nos últimos dias, muito tem se falado do cancelamento da edição deste ano do FIT – Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte. Indignados, representantes da classe artística fizeram barulho à frente da Fundação Municipal de Cultura. E não é para menos. A gente tem que dar o berro mesmo! A suspensão de um evento com a importância do FIT, para a formação de público e do pensamento voltado ao fazer artístico, é de um prejuízo sem tamanho para a cidade. Nenhuma desculpa, hipocritamente articulada pela Fundação e seus asseclas, é capaz de justificar tamanha falta de respeito para com aquilo que não pertence a eles, mas à comunidade. Eles acham que nós somos idiotas? Ano de eleição e de Copa do Mundo não implica no cancelamento de outras atividades de igual importância. Chegaram a dizer que o FIT estava sendo suspenso devido à falta de bons espetáculos no mundo. Repito: no mundo! Que tal então se fizéssemos o convite a alguma companhia teatral de Marte, através de um convênio com a NASA?

Há pessoas que são tão levianas que são incapazes de perceber que eventos coletivos, como os festivais, não pertencem a eles, supostos administradores do poder público. E tampouco se prestam a jogatinas políticas. Trata-se de uma conquista de todos. Onde foi parar o debate, o diálogo, a decisão coletiva? Divulgar uma notícia desta magnitude assim, de supetão, sem qualquer aviso prévio, traz de volta aquele desconforto do autoritarismo, fica parecendo conchavo de gabinete. Em qualquer lugar relativamente sério, teríamos reuniões e discussões sobre o assunto, com representantes da cultura, da comunidade e dos gestores do poder público. Mas o nosso atual governo municipal está tendo a capacidade de causar-nos perplexidade. Algumas medidas parecem querer mandar a democratização da cultura para as cucuias. Proibir eventos artísticos na Praça da Estação é outra medida arbitrária, esdrúxula, sem lastro popular.

E aí, tentando reparar o dano depois que a caca foi feita, surge a ideia de se tentar fazer um FIT menor, com uma edição mais enxuta. E o nobre compromisso de se conduzir esta sugestão ao topo da pirâmide, às instâncias superiores da Prefeitura de Belo Horizonte. Quanta bravura. Ficamos emocionados ao saber do compromisso de nossos dirigentes para com a vontade popular. Soa mais ou menos assim: “tudo bem, estou do lado de vocês, meu povo querido, vou fazer o que vocês querem, pois acredito no bem comum”. Tá bom, viu... A pergunta é: por que então, antes de divulgarem a nota funesta sobre o FIT, antes de agirem com autoritarismo, não anunciaram de uma vez que talvez fosse necessário um certo ajuste no Festival? Existe algum problema em se ter transparência, sobretudo quando estamos tratando de algo que vai muito além que o nosso próprio umbigo?

Até a próxima.