Parece-me que ando meio nostálgico. Pois não é que ontem fiquei saudoso, ao ter com amigos num bar no 2º andar do Maletta e, no som do ambiente, imperava soberana (eis aqui um pleonasmo: quem impera é soberano, pombas! – ah, deixa pra lá, vai, fica assim mêrmo!) a música “Menina Veneno”, gravada pelo Ritchie, eu acho e desconfio que lá pelos idos de 1983? A canção composta pelo próprio Ritchie, em parceria com Bernardo Vilhena, foi sucesso estrondoso naqueles tempos hoje longínquos. Minha pessoa engatinhava os primeiros passos de uma adolescência que seria conturbada à beça e a bessa. Mas isso é outra história. Das boas, diga-se de passagem. Dá até roteiro bom de filme... Importante foi que a música embalou os sonhos de um bando que criaturas jovens pra dedéu, que começavam a descobrir o sexo, as drogas e o rock’n’roll. As drogas conseguimos deixar pra lá, graças ao bom Deus, mas o resto segue aí, firme e forte, na ponta da tabela e da preferência pessoal.
Naquela época, imaginávamos que no ano dois mil os carros flutuariam e muita gente moraria em bases lunares, pra fugir do crescimento desordenado das cidades. As pessoas se vestiriam de maneira quase cibernética e na Terra haveria uma chuva ácida constante (influência do filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer e Sean Young). Putz! Pensar que os dois mil já estão ficando distantes e que muita coisa continua bestialmente atrasada. O caos no trânsito e a violência desmedida não são mais ficção; estão aí, pra todo lado, ao desgosto do freguês. Pra piorar, a honestidade – algo supostamente antigo, que deveria ser pilar da humanidade – parece esquecida. Pois se nem a tal da “ficha limpa”, pra impedir que canalhas desprezíveis nos governem, a gente consegue aprovar... Foda, meu!
Deixa pra lá, de novo. Apenas por ora. Noutra ocasião falamos disso... Então, voltemos, pois, à guria peçonhenta do início. Estávamos sentados à mesa do bar, musiquinha rolando no razoável equipamento sonoro e cervejinha Sol mexicana geladaça rolando goela abaixo. Na letra da canção que pairava no ar, a frase: “um abajur cor de carne”. Pô, meu, essa passagem é massa. Inevitável a pergunta: “qual será a ‘cor de carne’, que o cantor inglês naturalizado brazuca se refere com tanta propriedade?” Os palpites rolaram, no que deu pra perceber que cada um tem a sua “cor de carne”. Teve um que soltou: “bom, se for carne de frango, é branquinha, branquinha”. Falta de graça, velho! E eu pensando numa coisa rosadinha, fofinha, bonitinha. Foi-se embora meu devaneio com a ideia do frango vulgar, encarnando o candeeiro chique. Mais surpreendente ainda foi outro comentário: “eu vejo carne de onça”. Cuño, joder tío, pero... carne de onça?! Um abajur cor de carne de onça! Alguém me diga: como é a carne de onça? Não conheço. Ainda mais com campanhas e campanhas de preservação da natureza e tanta carne domesticada à disposição. Pode ser que a pessoa tenha pensado numa enorme onça furiosa entrando no quarto e dilacerando os amantes, que ali estavam em sua privacidade sublime, a ponto de deixar o abajur emplastado com os restos do casal. Pois é: uma cena trash, de gosto duvidoso.
Mas, enfim, não sei, só sei que foi assim, parafraseando o Chicó de “O Auto da Compadecida”.
No mais, ao meio e ao cabo, até a próxima procês todos. Saravá.