quarta-feira, 26 de maio de 2010

Filme de protesto

Dois amigos se encontram num bar. O primeiro, já sentado à mesa, está relaxado como quem parece satisfeito com a vida. O segundo, que acaba de chegar, demonstra-se revoltadíssimo, com ânsia de protestar. Uma câmera acompanha de perto o amigo que chega.
_ Que cara é essa, meu?
_ Ah, velho, tô puto!
_ Puto com o que?
_ Sei lá. Só sei que tem coisas que me incomodam.
_ A mim também.
Pequena pausa.
_ Tô fazendo um filme de protesto.
_ Quando?
_ Agora. Olha a câmera aí.
O amigo 1 olha para frente, para os lados e não vê a câmera, que se encontra rodeando a mesa.
_ Tá vendo não?
_ Não.
_ Essa é boa. Ele não vê a câmera. Então, ninguém vê. Uma câmera invisível... É, tô fazendo um filme mesmo. De ficção.
O amigo 1 observa o amigo 2 com estranheza, como se este estivesse louco.
_ Cara, tá tudo bem com você?
_ É claro. Tá bebendo o que?
O amigo 1 mostra-lhe a garrafa de cerveja, como se a pergunta tivesse sido o máximo em obviedade. O amigo 2 se dá conta.
_ É, tem razão. Idiota demais a pergunta. Moça, me traz um copo, por favor.
Uma mulher aproxima-se imediatamente, como se já estivesse a postos, trazendo um copo lagoinha vazio e outro cheio com algo de beber. O amigo 1 se espanta.
_ Uau, que rapidez!
_ Ela é atriz, contratada para fazer meu filme. Tava fora do quadro, esperando a deixa. Senta aí, moça.
A mulher senta-se. O amigo 1 aprova e sussurra:
_ Gata.
O amigo 2 faz que não ouviu e indaga a moça:
_ Escuta, tá sabendo que vai ter cena de beijo, né?
_ Estou.
_ E isso te incomoda?
_Depende. Se houver um motivo, não vejo problema. Se for coisa gratuita, acho bobagem.
_ Tem razão. Se bem que, em filme de protesto, tem beijo?
A mulher assusta-se:
_ Seu filme é protesto?
_ Você não sabia?
_ Não, olha só, escuta: se seu filme é protesto, eu tô fora.
_ Mas, por que?
_ Por acaso vocês sabem o que é um protesto? Quer dizer, um protesto mesmo, que valha a pena ser dito por alguém e escutado por outrem?
Os dois homens fazem cara de que não estão compreendendo. A mulher prossegue:
_ Caras, protesto é quando você não concorda com alguma coisa e age contra isso.
_ Mas isso todo mundo sabe – retruca o amigo 2.
_ Sabe nada! Pouca gente se importa com as coisas que hoje são dignas de protesto. Um filme de protesto acaba sendo assistido por uma parcela mínima da população. E isso é culpa de quem? Do espectador ou daquele que fez o filme? Hein?
O amigo 1 parece ter a resposta:
_ Do distribuidor.
_ Do exibidor – completa o amigo 2.
_ Da conjuntura sócio-cultural-político-econômica – arremata o amigo 1.
_ É, o problema pode estar nisso tudo também. Mas o fato que é um filme de protesto tem que ter conteúdo. Tem que valer a pena produzi-lo, distribuí-lo, exibi-lo e assisti-lo – argumenta a mulher.
_ Mas um filme de protesto é fundamental! É por isso que tô fazendo um – afirma orgulhoso o amigo 2.
_ Ótimo. Faça-o. Mas em protesto, eu não quero participar dele.
_ Mas...
A mulher levanta-se:
_ De qualquer maneira, valeu o convite. Boa sorte.
_ E a cena de beijo? – indaga o amigo 2.
_ Vocês dois podem fazê-la. Vai ficar ótimo.
A mulher sai. Os homens entreolham-se, estupefatos. O amigo 1 matuta:
_ Será?
O amigo 2 espanta-se:
_ Sai fora, cara! Olha a ideia do sujeito... Quer saber: cansei. Em protesto, também eu desisto. Corta!

E assim, acaba a história. Até a próxima.