O objetivo é simples, embora audacioso: a tentativa de relatar, analisar, discutir, confrontar, criticar e respeitar tudo aquilo que permite admiração ou repulsa nos sons, nas telas, nos palcos e nos livros da vida.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
O dia em que conheci Clint Eastwood
Houve um menino que um dia assistiu a um filme de faroeste. Acompanhado do pai, o menino não entendeu muito bem do que se tratava aquela confusão toda: tiros pra todo lado, chapéus voando, gente correndo, cavalos galopando, bombas explodindo. Mas, mesmo sem compreender o motivo, o menino colou os olhos na tevê Phillips que parecia de madeira, com aquele enorme botão seletor de canais e a tudo assistiu. Ficou deslumbrado. Depois vieram outros filmes do gênero, todos com o pai a tiracolo (ou seria ele que nestas horas não se desgrudava do velho?).
Aquele primeiro filme, entretanto, ficou na cabeça do menino. Passou a fazer parte do imaginário de criança. O título ajudava à beça: “O Bom, o Mau e o Feio”. Até brincadeira com os dois irmãos gêmeos, um ano mais novos, o menino fez: um seria bom, o outro mau e o último feio. Era aí que residia o problema: nenhum dos três queria ser feio. Aliás, ninguém nunca quer ser feio. Nos jogos de criança – e, lamentavelmente, na vida de muitos adultos –, ser mau é um barato. Dá até status. Mas feio, nunca! E assim, aqueles meninos eram três crianças em conflito...
Naquele filme, o que mais despertou a atenção do menino foi exatamente aquilo que deveria despertar: o bom, é claro. Na verdade, bom é maneira de dizer, porque de bonzinho o personagem nada tinha. Não era o vilão, isso era certo, como também o feio não tinha esta função. O feio era apenas tosco. O bom era apenas justo, à sua maneira. É isso que vale, sempre: tentar ser justo.
Para complicar o entendimento do menino, o bom era personificando por um sujeito de nome estranho, que mais parecia marca de algum produto importado. Mesmo assim, o menino virou fã do cara. Foi crescendo e assistindo a tudo o que podia encontrar daquele sujeito. Os faroestes eram imprescindíveis: “Por um Punhado de Dólares”; “A Marca da Forca”; “O Estranho sem Nome”; “Josey Wales”.
O menino ficou adulto. Deu um monte de cabeçadas na vida – acertou nalgumas delas e errou numa porção de coisas. Continua errando. Mas aquele sujeito de nome estranho permanecia inspirando o ex-menino a tentar enxergar o mundo, mesmo com as dificuldades inerentes a quem sem mete neste processo. O adulto agora acompanhava o cara como ator, diretor, produtor, prefeito (!) de uma cidadezinha chamada Carmel, na Califórnia, e o mais que fosse. Vários filmes se seguiram à frente dos olhos do adulto: “Magnum 44”; “Alcatraz”; “Raposa de Fogo”; “Escalado para Morrer”; “Dirty Harry”; “O Destemido Senhor da Guerra”; “Os Imperdoáveis” (olha o faroeste de novo aí!); “Um Mundo Perfeito”; “As Pontes de Madison”; “Crime Verdadeiro”; “Cowboys do Espaço”; “Dívida de Sangue”; “Sobre Meninos e Lobos”; “Menina de Ouro”; “A Conquista da Honra”; “Cartas de Iwo Jima”; “A Troca”.
Veio, enfim, o mais recente: “Gran Torino”. O adulto, que um dia foi o menino fã dos filmes de velho oeste, que descobriu gostar de cinema um bocado, finalmente confirmou o que já sabia: aquele cara durão de nome estranho era mesmo um artista sublime. E isso todos já o sabem. Quando alguém atinge determinada capacidade de discurso, de síntese, é porque tem o que dizer. E para dizer alguma coisa sobre a vida, sobre os outros, é preciso conhecer a si mesmo. É preciso fazer as coisas com simplicidade. E mesmo quando tudo parecer pesado demais, caótico ao extremo, devemos ser leves. Ou, pelo menos, tentar sê-lo. Como o personagem Walt Kowalski no final do filme. Talvez um dia a gente aprenda...
Salve Clint Eastwood!
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