quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tem coisa que abunda

Estava, ontem, pesquisando no Google quando me deparei com fato inusitado – aliás, bizarrice na Internet é coisa que abunda. Uma moça afirmava: “preciso muito ficar rouquinha até quinta-feira. Me ajudem, por favor!”. Queridos, a demanda da beldade, em si, já é incomum. Mas teve uma resposta que me soou estupenda. Sujeito dizia: “é só gritar dentro do vaso por 3, 4, 5 horas seguidas. Grita o dia inteiro, mas dentro do vaso, porque se você gritar perto das pessoas, elas vão te internar num hospital de loucos”.

Das duas, uma: ou ando muito besta, acima da medida, ou a necessidade da moça e a ajuda do amigo são engraçadas, porque eu me diverti. Verdade. Devo até ter ficado rouco, vitimado pelas minhas risadas que desconfio sem propósito... Pelo meu turno, a sugestão que dou à moçoila é bradar pateticamente, enfurecer-se, espernear-se, tentar chorar a todo custo e sem propósito, como anda fazendo Regina Duarte na refilmagem de “O Astro”. Interpretação sofrível, caricatural ao extremo, numa das piores novelas da história, embora desconheça todas as outras. Está de doer a pleura e tudo quanto é órgão e membrana que recebem o que é repulsivo... E aí, alguém me pergunta, com imensa perplexidade: “man, tu vês novela?” Eu devolvo: “é evidente que não, mas às 23:00 já tô em casa, pô, e a m*! da televisão, sem cabo, costuma ficar ligada”. Aí, danou-se.

Pois é, fica assim então. No dia que precedeu o de hoje, teve isso. No dia que agora me encontro, teve outra: liguei faz pouco para o meu filho mais novo – dezoitão, enorme, maior que eu –, pedindo que ele fosse ao cartório autenticar um documento, pois agarrado estava e agarradíssimo estou. O cara me respondeu: “ih, pai, vai dar não”. “Por que?”, indaguei, pensando tratar-se de preguiça. “Ah, porque tô numa caganeira mítica!” Pronto, a resposta já foi suficiente para me fazer rir outra vez. Caganeira mítica... Só meu filho mesmo...

Por falar em mito, desta vez fisiologicamente bem comportado, sem vasos e gritarias por perto, lembrei-me que a última coisa fabulosa, fantasiosa e rara que vi no cinema foi “Planeta dos Macacos: A Origem” (“Rise of the planet of the apes”, EUA, 2011). A versão atual, dirigida por Rupert Wyatt e protagonizada por James Franco, não se compara, nem por um milímetro, ao primeiro filme da série dos anos 1960/70, de título similar (“Planet of the Apes”, EUA, 1968, direção de Franklin J. Schaffner), estrelado por Charlton Heston e Roddy McDowall, que obteve sucesso estrondoso e várias continuações no cinema, gerando, ainda, uma boa série de TV. A última cena do filme de Schaffner, mostrando o desespero de Heston ao descobrir a verdade, é dos momentos mais emblemáticos e inesquecíveis da ficção científica no cinema.

Em 2001, também teve a variante de Tim Burton para o “Planeta dos Macacos” (“Planet of the Apes”, EUA), naquele que pode ser considerado o pior filme do talentoso diretor estadunidense. A versão atual consegue ser bem melhor. Por sinal, ninguém até hoje soube explicar como Burton se meteu em algo tão ruim...

A história de um mundo governado por macacos continua interessante, sobretudo quando sabemos que muito governante por aí consegue ser mais desumano que qualquer primata. Na verdade, chamar certas pessoas de macaco é ofender nossos amigos símios, dos quais descendemos.

Embora não seja filme de primeira, a refilmagem moderna da lenda vale como diversão. Serve, também, como reflexão – afinal, o único bicho com capacidade de ser cruel é o homem. Macacos, certamente, não cometeriam as atrocidades que vemos todos os dias.

Até a próxima.

domingo, 11 de setembro de 2011



"nos fios tensos
da pauta de metal,
as andorinhas gritam
por falta de uma
clave de sol"


(Secos e Molhados)


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O fluxo da vida como a lava de um vulcão

Um filme metafísico. Por mais que procure outras maneiras de compreender algumas questões presentes no enredo, não consigo alterar a primeira impressão que tive ontem ao assistir “A Árvore da Vida” (“The Tree of Life”, EUA, 2011). Com esta obra, o diretor e roteirista Terrence Malick retoma, de certa forma, a ideia delineada em outro filme de sua autoria, “Além da Linha Vermelha” (“The Thin Red Line”, EUA, 1998), embora este último tenha como assunto a violência absurda da II Guerra Mundial, durante a Batalha de Guadalcanal, travada entre norte-americanos e japoneses nas Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico. Em ambas as películas, percebemos que um dos princípios desenvolvidos por Malick reside no fato de que a vida se movimenta, muitas vezes, devido meramente às circunstâncias. Todavia, mesmo neste contexto, cada um de nós tem capacidade de reflexão e poder de decisão. Desde a primeira frase de “A Árvore da Vida”, a ideia está presente. Diz a voz: “Existem duas maneiras de se viver: a maneira da natureza e a maneira da graça. Nós temos que escolher qual delas seguir”.

Esta dicotomia permeia a obra, constrói o discurso e traz sensações. É como se o ser humano pudesse escolher o seu caminho, mas isso não significa que ele esteja imune ao acaso. Desta forma, os combates bestiais criados pelos homens que, no outro filme, aterrorizam e destroem, são agora substituídos por desespero e inércia perante os eventos imprevisíveis, capazes de interferir na vida de qualquer um, causando, da mesma forma, sofrimento e frustração. Tudo isso pode parecer óbvio, mas Malick talvez queira, na verdade, refletir sobre a possibilidade destas coisas terem origens mais complexas do que parecem.

O enigmático diretor – avesso a entrevistas e aparições públicas – constrói momentos sublimes, que nada têm de “viajantes” e/ou pouco racionais, conforme comentários que escutei após a sessão. Tudo é pensado, refletido, espelhado, metaforizado e extraído de nossos medos e desejos. Sonhos plenos, individuais e inebriantes, como a maternidade, confundem-se com eventos gigantescos, como a formação de uma galáxia. E, embora pareçam fatos distantes, podem estar mais próximos do que imaginamos.

As relações familiares e as reflexões dos personagens de Brad Pitt, Jessica Chastain e Sean Penn mais parecem anseios paradoxais, na medida em que escutamos no decorrer do filme frases como “é preciso uma vontade feroz se quiser vencer na vida” e “guie-nos (Deus) até o fim dos tempos”. Ou seja, o homem pode escolher, mas não completamente, pois está inserido em algo muito maior que o próprio Eu. Nascer e morrer são fatos inquestionáveis, imutáveis, para a natureza, os animais, a raça humana e o universo. “Algum dia você vai cair e chorar. E então vai entender tudo. Todas as coisas”, diz Brad Pitt a seu filho primogênito, embora esta declaração pareça direciona a todos – ou almejada por todos.

A beleza das imagens e as conexões entre elas, estabelecidas pela montagem, som e texto, criam sentimentos particulares, que podem variar da ternura ao incômodo. Por isso, há quem termine o filme extasiado e há aqueles que o abandonam no meio do caminho. Os que aceitam as proposições de Malick e se deixam levar, ao meio e ao cabo, são presenteados com a reflexão mais arrebatadora da obra: “a não ser que você ame, sua vida passará com um flash”.

É isso. Sem mais para o momento, despeço-me. Até a próxima.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Nastassja Kinski

 
sem comentários...  
 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vamos falar na tora, sem tabu!


Embora o tempo passe e as décadas avancem, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais... Não se assustem com final da frase anterior, roubada do Belchior, aqui utilizada longe do contexto musical imortalizado na voz da Elis e, ao mesmo tempo, repleta de conteúdo em si, mesmo isoladamente. O fato é que eu sempre quis começar uma crônica assim. Consegui.

Regozijado, agora, ao ver um desejo realizado, sigamos adiante. Dia desses, acabou calhando d’eu assistir no cinema, pela segunda vez, o filme “Quebrando o Tabu” (Brasil/EUA, 2011, direção de Fernando Grostein Andrade). O motivo que me levou ao repeteco fílmico foi episódio singelo – aliás, os motivos que nos levam à ação costumam ser de ordem singela, no sentido de coisa “simples” e não de fato “inocente, ingênuo”, porque isso já é outra história e cá não apetece aprofundar.

Bem, o lance é que eu precisava escrever breve artigo sobre o panorama do cinema documentário brasileiro contemporâneo. E aí, compadre, é que são elas: descortinar conteúdo desta natureza de maneira sucinta não é fácil. Tem que deixar muita coisa de fora. É por isso que continuo em vias do traçado e ainda não terminei o texto. Mas, para estas linhas, que ora se produzem, importa afirmar que o filme citado não poderia ficar ausente de comentários.

“Quebrando o Tabu” pretende ser documentário sério, sobre assunto de imensa relevância: a maneira como os governos e as sociedades tratam a questão das drogas. O filme discute, sobretudo, a descriminalização dos entorpecentes e as maneiras não-violentas de combatê-los. E atinge o seu objetivo de maneira convincente, na medida em que faz com que o espectador reflita sobre o assunto. Para isso, utiliza-se de alguns recursos de linguagem que a estrutura documental vem desenvolvendo há algumas décadas: entrevistas, textos, computação gráfica, animações, arquivos. O excesso de música incomoda, mas não atrapalha o conteúdo que, afinal de contas, é o que verdadeiramente interessa.

A narrativa é ora capitaneada, ora pontuada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que percorre alguns países, como Estados Unidos, Holanda, Portugal e Suíça para revelar como estas nações tem tratado a questão. Por inúmeras vezes, no decorrer da película, nós, espectadores, somos lembrados que descriminalizar é diferente de liberar. As propostas nacionais, com maior ou menor grau de acerto, visam combater o traficante e ajudar o usuário, principalmente se ele for dependente, uma vez que, neste caso, os auxílios médico, social e psicológico são necessários.

Outras participações ilustres não faltam ao filme, como os ex-presidentes norte-americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Dráuzio Varella e o escritor Paulo Coelho. É interessante ouvir relatos diversos, que vão dos dependentes desconhecidos às celebridades formadoras de opinião. Também é bom saber que o FHC, aos 81 anos, está envolvido em tema urgente, plenamente disposto a contribuir na discussão – como tenho visto em seus últimos depoimentos –, a fim de que encontremos caminho lúcido para assunto problemático, que vem destruindo a vida de muita gente, desde os tempos de nossos pais.

Até a próxima, bicho.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Em tempos de precocidade máxima

Um sujeito me procurou outro dia com um material curioso: um curta-metragem produzido por seu filho. Apresentando-se como advogado trabalhista apaixonado pela Sétima Arte, o homem pedia que eu assistisse à obra do herdeiro, para que pudesse ajudá-lo a orientar o guri quanto ao caminho a seguir, no que diz respeito aos estudos de cinema. Essas coisas acontecem com quem leciona no meio audiovisual e, até aí, tudo bem. É inerente ao ofício. Mas, na maioria das vezes, a gente desconversa, pede desculpas, diz que irá dar uma olhadela quando tiver um tempinho e assim vai. A verdade é que quase ninguém tem tempo e/ou disposição de assistir tudo aquilo que pedem que a gente veja. É esse o fato. No entanto, o sujeito era simpático e educadamente insistente. Ao meio e ao cabo, acabei me rendendo à sua solicitação e assistindo ao filme.

O curta do garoto, feito em miniDV com recursos modestíssimos, jamais passaria de interessante, se o autor não fosse exatamente isso: um garoto. De treze anos! E aí, não teve jeito: coloquei-me a pensar nesta questão.

A questão é: o simples fato do garoto ter feito um filme, ou vídeo, como queiram (embora fazer qualquer coisa nesta área nunca seja propriamente simples), já é, em si, algo relevante. Legitima qualquer esforço. O diretor norte-americano Sidney Lumet (1924 – 2011), já dizia em seu livro “Fazendo Filmes” (Ed. Artemídia Rocco, Rio de Janeiro, 1998): “o primeiro filme de um diretor basta por si só”. Ainda que o termo “diretor” evidentemente não possa ser aqui aplicado, é notável o fato de um menino escrever um roteiro, decupá-lo, acender um refletor, montar um tripé, enquadrar uma câmera, gravar um vídeo com vários planos e cenas, e editá-lo, instintivamente, sem qualquer subsídio e contando apenas com a ajuda de alguns amigos.

A reflexão não se extingue aqui. Ao contrário, inicia-se. Esse garoto é o exemplo de como a nova geração está se relacionando com o cinema hoje, quer seja no tocante ao acesso a filmes para consumo particular, quer seja na absorção das possibilidades de realização audiovisual.

Este panorama contemporâneo é causa e efeito: as novas mídias, aliadas aos modernos mecanismos de veiculação/exibição de conteúdo, têm possibilitado que parte da população (ainda que pequena), desde muito jovem, trave contato com som e imagem, inserindo-se naturalmente neste sistema de consumo/produção/promoção. Além disso, o meio audiovisual evoluiu dentro desta lógica de ação e reação: a produção cinematográfica brasileira cresceu imensamente na última década, despertando o interesse de uma significativa parcela da nova geração, nas grandes e médias cidades, antenada aos novos veículos de comunicação, que permitem rápido acesso à informação e que, por sua vez, têm feito surgir a necessidade de capacitação, gerando assim escolas e cursos de cinema, capazes de colocar no mercado jovens ávidos em produzir e que, por sua vez, se aproveitam e/ou criam espaços para distribuição daquilo que produzem. Ufa, a última frase ficou enorme... Mas é possível que traduza a urgência do pensamento. E tudo isso sem falar nos mecanismos de incentivo – leis, editais, concursos –, em âmbitos federal, estadual e municipal, que também têm contribuído na construção desta realidade. Como resultado, temos um enorme volume de curtas-metragens sendo realizados nos últimos anos. Basta verificar as mostras e festivais nacionais: grande parte das obras inscritas e selecionadas nos últimos eventos têm, como autores, jovens realizadores, capazes de articular discursos atraentes, utilizando-se de técnica e gramática audiovisuais com consciência.

Traçando um escopo, percebe-se facilmente um cenário auspicioso, no tocante à formação de novos realizadores e técnicos.

Em um meio tão concorrido, onde os equipamentos/serviços de filmagem e de pós-produção são, desde sempre, bastante onerosos, saber que a formação de mão-de-obra e o interesse pelo nosso cinema é uma realidade pululante entre os jovens, deixa-nos otimistas quanto ao nosso futuro cinematográfico. Obviamente, ainda há muito que caminhar. Proporcionar a uma gigantesca parte da população a inclusão digital deve continuar como meta. Mas parece-me que, neste sentido, o Brasil caminha. De maneira lenta, mas caminha. Sigamos então.


[Artigo publicado na Revista do Cinema Brasileiro, em 19/07/11]

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Elucubrações de um insatisfeito

Não faz muito tempo, agorinha mesmo, escutei na CBN que as obras de reforma do Mineirão estão sob suspeita e serão investigadas. Parece que está rolando por lá muita falcatrua... Oops, mas por que raios duplos e triplos eu não fiquei surpreso com esta minha última frase? Vai ver que é porque no Brasil ética e honestidade não sejam lá coisas a serem levadas em conta... Ai, ai, lá vamos ficar outra vez passivos com a roubalheira neste país.

Segundo o radialista, cujo nome não me lembro, o custo da obra, que visa melhorias no estádio para a Copa do Mundo de 2014, assumiu cifras exorbitantes. Procês terem uma ideia, de acordo com a reportagem, só o valor pago na contratação de um escritório de arquitetura para criação de um projeto de reforma foi algo em torno de 17.500.000,00. Cês estão entendendo os números? Dezessete milhões e quinhentos mil reais para um projeto de reforma – eu disse “reforma” – do Estádio Magalhães Pinto. Para efeito de comparação, o escritório de Oscar Niemeyer – eu disse “Niemeyer” – recebeu 3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil reais) para criação do projeto original da Cidade Administrativa. Amigos de todas as cores, credos e gostos: um projeto original quatorze milhões de reais mais barato que um de reforma, feito pela turma do mais famoso arquiteto brasileiro. Vou voltar minha fita K7 e repetir: um projeto arquitetônico inédito, não estou falando agora de projeto para melhorar o que já existe, como no caso do conhecido templo futebolístico, onde o Cruzeirão, o Atleticão e o Americão já mandaram milhares de jogos.

Os valores aqui citados foram pronunciados pelo repórter radiofônico da CNB, o que não me deixa crer que ele estivesse mentindo. E tem mais um detalhe: segundo ele, a contratação milionária do escritório deu-se sem licitação. Diacho, danou-se de vez, agora tô besta!!! É por estas e outras que Shakespeare estava certo: “Há algo de podre na República Federativa do Brasil”. Sim, porque se ele conhecesse o Brasil, não teria escrito a tragédia “Hamlet” com ambientação no Reino da Dinamarca. Aliás, nosso paraíso tropical seria o lugar ideal para as suas tragédias.

Às vezes penso que nós, brasileiros, temos mais é nos ferrar. Em país dominado por embusteiros – e muitos deles, nós mesmos elegemos –, todo mundo tem mais é que se estropiar. Não é possível tanta pilantragem! A gente tem que dar o grito, pombas! Dá até vontade de xingar à beça. Mas os termos exatos que gostaria de escrever – e muito o mais que precisava vociferar – não o faço, pois, parafraseando o Almeida Reis, sou de uma pudicícia que encanta e comove.

Mudando de pato para ganso (puxa, até parece que tô falando de jogadores de futebol), só faltou o cisne... Quer dizer, não é isso, tem nada a ver com o assunto, me embananei com a quantidade de anseriformes citados na frase anterior. Mas tudo bem, como sei que é do conhecimento de todos nós desde o nascer, anseriforme é uma ordem de aves aquáticas que contém 161 espécies distribuídas por 48 gêneros e 3 famílias. O pato, o ganso e o cisne são representantes legítimos desta patota, que costuma se dar bem na água e, mais recentemente, nos gramados de futebol.

Pronto. Descobri porque cheguei às aves: é que estava eu falando das ladroagens que estão rolando no Mineirão, onde o Pato e o Ganso algum dia jogarão.

No mais, até a próxima procês todos.

segunda-feira, 30 de maio de 2011





o que é isso que soa bem longe?



amor!



o vento e a chuva nas vidraças, amor meu!




(inspirado em Lorca)


domingo, 29 de maio de 2011

Não almocei pensando em você, não jantei pensando em você.
Agora não consigo dormir, porque estou com fome.

terça-feira, 24 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

É nóis ôtra vêiz

No Rio de Janeiro, de novo. Talvez seja a primeira, dentre as últimas dez vezes, que venho à Cidade Maravilhosa apenas a passeio. Nada de trabalho. Só diversão e arte para qualquer parte... Momento bom para rever amigos que aqui se instalaram e apreciar uma praiazinha, tomando um solzinho maneiro acompanhado daquela geladaça! O motivo da vinda? Fácil: o show do Paul! Como fã de McCartney e fã do Rio, decidi juntar os dois fanatismos e cá aportar três dias antes do espetáculo. Afinal de contas, curtir a vida é bom e eu agradeço.

É curioso imaginar (todas as vezes que aqui estou penso nisso) como uma metrópole muito maior do que BH City, com frota de veículos imensamente mais numerosa, tem um trânsito menos agarrado que a Capital das Alterosas. Por que isso se dá? Quem é o responsável pelo caos? O projeto original de BH, datado do final do séc. XIX? A população? O avanço econômico? Os políticos? Aqueles que deveriam gerenciar o trânsito? Vai ver, uma junção de tudo isso e mais. De concreto (e há pesquisas que confirmam), temos o trânsito belorizontino como o menos solidário do Brasil. Se alguém duvida, tente dar uma setinha, na esperança de conseguir passagem de uma faixa a outra e veja se algum horizontino (que no trânsito nada tem de belo) será a capaz de deixá-lo passar. Arrisque fazer uma simples conversão e veja se alguém terá o bom senso de ceder espaço. Sujeito acelera pra não ver você à frente dele, como se estivéssemos numa disputa por uma merda qualquer, em meio ao caos. Enfim, é assim, entre as montanhas. Aqui no Rio, ainda que a falta de educação também exista, pelo menos, não há a BHTRANS.

Essas coisas são terríveis. Pensar nisso me deixa violento como Hagar, o Horrível. Por que tive que citar a política? Diacho, sou daqueles que acham que política deve ser como futebol: se o técnico não está dando certo, manda-se embora e contrata-se outro. Às vezes, consegue-se assim evitar que as coisas piorem e, até mesmo, rebaixamentos dados como certos... Brincadeira. Na política isso não funciona. Os “treinadores” são por nós eleitos. Política é coisa séria, desde a Antiguidade. Lamentavelmente, ela hoje é o oposto do que pensava Platão, quando assumia que a política era a arte que curava a alma e a tornava o mais virtuosa possível. A política coincidia com a filosofia, e um Estado deveria ser fundado sobre os valores do bem e da justiça. Pois é, depois dessa, é melhor não comentar o que é a política nos tempos atuais...

Quanto ao futebol, bem, de todas as coisas sem importância o futebol talvez seja a mais importante. É por isso que nos cabe ligar a tevê, pois o Brasileirão está começando.

No mais, ainda sobrou um tempinho aqui, mesmo com os raios solares no Leme durante a tarde com amigos e o bondinho em Santa Tereza à noite com estes mesmos amigos, de assistir, após tudo isso, ao filme “Os Agentes do Destino” (“The Adjustment Bureau”, EUA, 2011, direção de George Nolfi, com roteiro baseado num conto de Philip K. Dick, estrelado por Matt Damon e Emily Blunt). História instigante, sobre tema curioso.

Ao final, saí do Roxy influenciado, pensando se o encontro com a belíssima morena que conhecera algumas horas antes, na praia, entre os amigos e com quem reencontrara no jantar, que culminou no passeio de bonde – e cujo charme absoluto abalroou minha atenção e meu pensamento (até agora não penso noutra coisa senão nela) –, já não era algo traçado por um destes agentes do destino. Tomara. Ah, tomara...

Até a próxima.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma (di)versão sobre o amor

Que o amor tem várias formas, isso já sabemos. Que os caminhos para o amor podem ser tortuosos, é igualmente conhecido. Que não existe fórmula para o amor perfeito, também é de se supor. Fato é que, em se tratando do assunto, tudo é possível e, às vezes, provável, ainda que dentro de inúmeras improbabilidades.

Refletir sobre o assunto faz com que pensemos sobre a vida, de maneira mais ampla. O amor não se restringe aos pares, mas a um conceito irrestrito de existência. Vive verdadeiramente quem ama – a si mesmo, a família, os amigos, o próximo, o trabalho, a natureza, as coisas que o cercam. A Deus. Desnecessário, pois, afirmar que o amor é o sentimento mais profundo e verdadeiro, embora seja possível que algumas pessoas amem de maneira, digamos, pouco convencional.

Sobre isso se pode discutir. Pode-se, inclusive e necessariamente, escrever. Poetar (há quem diga poetizar), pintar, compor, levar ao palco. E por que não filmar?

Foi pensando assim que o roteirista Michael Konyves decidiu adaptar para o cinema o livro “Barney’s version”, do escritor canadense Mordecai Richler que, por sua vez, utiliza-se de Barney, seu personagem principal, para moldar uma caricatura de si mesmo, em sua relação com tudo aquilo que o cerca. Seguindo e finalizando esta esteira, coube ao diretor Richard J. Lewis levar a história à tela grande.

O filme “A Minha Versão do Amor” (“Barney’s version”, Canadá, 2010) coloca-nos em contato com o já citado Barney, um sujeito neurótico, politicamente incorreto, boêmio e profundamente enamorado. Como resultado, temos aquele tipo de personagem que teria tudo para ser desprezado, mas acaba adorado, devido às suas imperfeições. Por isso, o filme diverte e comove, conta-nos sobre vida e morte, desejos e medos, amores e paixões.

O norte-americano Paul Giamatti elabora uma das melhores construções dramáticas dos últimos anos no cinema. Ator dos mais versáteis, Giamatti é capaz de mudar do riso às lágrimas num instante, com extraordinária precisão. Sua performance atinge momentos sublimes, quer seja na juventude ou na senilidade do personagem. A seu lado, em aparições pontuais no decorrer do filme, temos um Dustin Hoffman impagável, no papel de pai do protagonista, confirmando sua fama de um dos maiores intérpretes de Hollywood.

Barney é um cidadão incapaz – é completamente inapto em ser “correto”, o que lhe confere dimensão sensível. Torna-se inevitável pensarmos que o ser humano se constrói através de seus inúmeros erros e de suas enormes dúvidas. Faz com que ponderemos sobre a possibilidade de que todas as pessoas podem ser potencialmente boas, capazes de amar, ainda que alguns se deixem levar por pensamentos mórbidos e atitudes atrozes.

As impressões de cada espectador sobre o enredo podem variar, mas é difícil escaparmos àquela sensação de inexorabilidade do tempo. Assim, o que vale realmente a pena são as coisas mais singelas, ou ainda o prosaico da existência, sem necessidade de brilho e espalhafato.

Até a próxima.

segunda-feira, 28 de março de 2011

De lembranças, cevadas y otras cositas más...

Parece-me que ando meio nostálgico. Pois não é que ontem fiquei saudoso, ao ter com amigos num bar no 2º andar do Maletta e, no som do ambiente, imperava soberana (eis aqui um pleonasmo: quem impera é soberano, pombas! – ah, deixa pra lá, vai, fica assim mêrmo!) a música “Menina Veneno”, gravada pelo Ritchie, eu acho e desconfio que lá pelos idos de 1983? A canção composta pelo próprio Ritchie, em parceria com Bernardo Vilhena, foi sucesso estrondoso naqueles tempos hoje longínquos. Minha pessoa engatinhava os primeiros passos de uma adolescência que seria conturbada à beça e a bessa. Mas isso é outra história. Das boas, diga-se de passagem. Dá até roteiro bom de filme... Importante foi que a música embalou os sonhos de um bando que criaturas jovens pra dedéu, que começavam a descobrir o sexo, as drogas e o rock’n’roll. As drogas conseguimos deixar pra lá, graças ao bom Deus, mas o resto segue aí, firme e forte, na ponta da tabela e da preferência pessoal.

Naquela época, imaginávamos que no ano dois mil os carros flutuariam e muita gente moraria em bases lunares, pra fugir do crescimento desordenado das cidades. As pessoas se vestiriam de maneira quase cibernética e na Terra haveria uma chuva ácida constante (influência do filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer e Sean Young). Putz! Pensar que os dois mil já estão ficando distantes e que muita coisa continua bestialmente atrasada. O caos no trânsito e a violência desmedida não são mais ficção; estão aí, pra todo lado, ao desgosto do freguês. Pra piorar, a honestidade – algo supostamente antigo, que deveria ser pilar da humanidade – parece esquecida. Pois se nem a tal da “ficha limpa”, pra impedir que canalhas desprezíveis nos governem, a gente consegue aprovar... Foda, meu!

Deixa pra lá, de novo. Apenas por ora. Noutra ocasião falamos disso... Então, voltemos, pois, à guria peçonhenta do início. Estávamos sentados à mesa do bar, musiquinha rolando no razoável equipamento sonoro e cervejinha Sol mexicana geladaça rolando goela abaixo. Na letra da canção que pairava no ar, a frase: “um abajur cor de carne”. Pô, meu, essa passagem é massa. Inevitável a pergunta: “qual será a ‘cor de carne’, que o cantor inglês naturalizado brazuca se refere com tanta propriedade?” Os palpites rolaram, no que deu pra perceber que cada um tem a sua “cor de carne”. Teve um que soltou: “bom, se for carne de frango, é branquinha, branquinha”. Falta de graça, velho! E eu pensando numa coisa rosadinha, fofinha, bonitinha. Foi-se embora meu devaneio com a ideia do frango vulgar, encarnando o candeeiro chique. Mais surpreendente ainda foi outro comentário: “eu vejo carne de onça”. Cuño, joder tío, pero... carne de onça?! Um abajur cor de carne de onça! Alguém me diga: como é a carne de onça? Não conheço. Ainda mais com campanhas e campanhas de preservação da natureza e tanta carne domesticada à disposição. Pode ser que a pessoa tenha pensado numa enorme onça furiosa entrando no quarto e dilacerando os amantes, que ali estavam em sua privacidade sublime, a ponto de deixar o abajur emplastado com os restos do casal. Pois é: uma cena trash, de gosto duvidoso.

Mas, enfim, não sei, só sei que foi assim, parafraseando o Chicó de “O Auto da Compadecida”.

No mais, ao meio e ao cabo, até a próxima procês todos. Saravá.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma cro-cro-crônica

Outro dia mesmo fui ao Grande Teatro do Palácio das Artes assistir à peça “Chico Rosa”, escrita e dirigida por Jair Raso. Era a terceira vez que assistia ao espetáculo desde a sua estréia, alguns anos atrás. Bela montagem, bons intérpretes, texto inteligente e muito boa música! O centenário de Noel Rosa, ocorrido em dezembro do ano passado, proporcionou o retorno aos palcos e a estréia de espetáculos, shows e homenagens país afora. E mais importante: permitiu uma revisitação à obra de Noel, um dos grandes gênios na música brasileira.

Dentre as ótimas músicas de Chico Buarque e Noel Rosa executadas na peça, estava o samba “O Gago Apaixonado”, composta por Noel em 1931. Na letra, logo no início, o sujeito fala: “eu de nervoso tô fi-ficando gago”. A música eu já conhecia, mas nunca havia parado para escutá-la. Saí do teatro, cheguei em casa, procurei no youtube, pus pra tocar e botei reparo. Genialidade do mestre Noel: canção divertidíssima, com letra, ritmo e melodia excelentes.

O que acontece com o gago é isso mesmo que o samba diz: quanto mais nervoso, mais gago. Fiz pesquisinha breve na Internet e descobri que a gagueira atinge cerca de 75% das crianças entre dois e quatro anos, quando estão começando a pronunciar as palavras. Eu mesmo, em fase de garoto e na adolescência, gaguejava às pampas. Esta desordem na fala, entretanto, costuma durar pouco nas crianças, coisa de meses. Mas, se a pessoa torna-se adulta gaguejando em demasia, aí é quase sempre necessária uma ajuda terapêutica.

É exatamente este o pretexto do filme “O Discurso do Rei” (“The king’s speech”, Reino Unido, 2010). O filme do diretor Tom Hooper revela a dificuldade do rei inglês, George VI, pai da atual rainha Elizabeth, em falar. Gago ao extremo e desesperançoso quanto a solução do seu problema, o rei precisa urgentemente encontrar alguém que o ajude, sobretudo porque a 2ª Guerra Mundial está em vias de começar e o monarca tem a obrigação de fazer um enorme discurso pelo rádio, para toda a nação.

É grande a aflição causada pelo filme. Mesmo antes de assumir o trono, o nobre tem lá suas obrigações de falar em público – e a coisa sai sempre muito mal. Daí o fato de o monarca passar a ter aquela constante sensação de que não foi feito para reinar. Desta dúvida nasce uma das reflexões do filme: para se tornar um bom governante, é preciso mais que oratória invejável. É preciso caráter. E isso o rei demonstra ter de sobra.

Outro aspecto reflexivo da película fica por conta da questão da discriminação: se o cara não pertencesse à família real, seria gradativamente enjeitado do convívio social, como se fosse portador de algo contagioso.

A direção de Tom Hooper, as interpretações de Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush e demais atores, aliadas aos outros elementos fílmicos, resultam em uma obra instigante e necessária, especialmente hoje, quando ironizar os defeitos alheios é muito mais comum que tentar compreendê-los.

Até a próxima.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

E a água continua caindo...

Enquanto a chuva não para, lá vamos nós, caminhando janeiro adentro. Fosse apenas a precipitação, estava tudo bem. Ficaríamos como Gene Kelly em “Cantando na Chuva”. Mas não há leveza neste momento. É lastimável saber do estrago que as águas estão fazendo por aí, sobretudo na região serrana do Rio de Janeiro. Não dá pra passar incólume; ver tanta destruição tira a gente da passividade. Emociona a quantidade de mortos e de pessoas que perderam absolutamente tudo – parentes, casa, móveis, objetos pessoais. Vidas inteiras que se foram na lama, nos escombros. Aqueles que puderem doar algo, que o façam, com urgência. Procurem onde possam ser deixados mantimentos e roupas. Nestas horas, a solidariedade talvez seja o único remédio para amenizar tanto sofrimento.

Todo ano, nesta época, é a mesma coisa: muita água caindo. E a impressão que temos é que piora a cada verão. Estarrece o fato das autoridades responsáveis, nos âmbitos da federação, dos estados e dos municípios tentarem remediar que antes prevenir. Se já sabemos que será sempre assim, por que não procurar resolver antes que a catástrofe ocorra? Tenta-se explicar a omissão com o fato de que se vai gastar muito reassentando as famílias que vivem em áreas de risco e que não há recursos suficientes para isso. Mas não é preciso ser especialista no assunto para saber que se gasta muito mais depois da tragédia. A solução não é fácil; nada, em se tratando de milhares de famílias em risco (o que significa milhões de cidadãos), é fácil resolver. Mas o novo governo tem a obrigação de tentar. Questão de prioridade nacional. Ou será que em 2012 acontecerá o mesmo?

Não dá pra brincar com o assunto. Deixemos de lado o tradicional e prosaico bom humor que se espera da crônica pra pensar seriamente em nossa fragilidade perante os reveses da natureza. Aliás, não são tratam de ações reversas; a natureza não muda o jogo. Nós é que cunhamos a instabilidade e criamos os problemas, por questões sociais, econômicas, políticas, religiosas. A construção e a destruição são de nossa responsabilidade. Façamos, portanto, o que precisa ser feito.

Até a próxima.