terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um lugar de resistência


Há anos não jogo WAR. Pode parecer um tanto fora de propósito iniciar uma crônica com uma frase assim, mas comentários literários que se prezem costumam partir de ângulos obtusos. Bem, bem, esquecendo imediatamente a geometria, aquele tabuleiro, conhecido como o jogo da estratégia, marcou a minha adolescência. E tenho certeza que a de muita gente. Era bom encontrar os colegas e ficar horas encarando-os com olhos de lince, jogando os dados e conquistando territórios inimigos. Mas os anos se passaram e nem sei o que foi feito daquele jogo. Provavelmente o vendi a algum amigo. Ou pior: subtraíram-me a coisa. Sem permissão, é claro.

O fato é que, com ou sem furto, o tal do WAR era um joguinho legal. Lembrei-me dele outro dia, quando fui obrigado a fazer um trabalho de pós-graduação. A tarefa encomendada por um dos mestres do liceu: assistir a uma película argentina e tecer uma bela crítica. Bacana demais, sô.

Lá fui eu. Catei o DVD com o filme. Seu título: “Kamchatka”. De cara, a palavra que o batiza já soa estranha. E qual é o seu significado? Aí está: é essa a pergunta que o diretor Marcelo Piñeyro (“Plata Quemada”, “Histórias de Argentina en Vivo”) inevitavelmente embute na cabeça do espectador que assiste a esta obra de título incomum.


Ambientada numa turbulenta Argentina de 1976, dias após o golpe militar que depôs a presidenta Evita Perón e colocou no poder o general Jorge Videla, a película de Piñeyro aposta em um protagonista infantil, ao fechar o foco no interrelacionamento de sua família e nos consequentes conflitos pessoais, originados pela violenta mudança política do país.

O mais interessante é que o diretor a tudo emoldura com notável sutileza. O filme conta a história de um casal e seus dois filhos, que se vêem obrigados a se esconder num sítio para escapar da ditadura. Harry, o primogênito, não entende a razão da mudança repentina de Buenos Aires para o interior. Alheio à real situação do país, o garoto irá descobrir inúmeras coisas sobre a vida e sobre si mesmo.

Recheada de particularidades, o roteiro de Marcelo Piñeyro e de Marcelo Figueras fala de coisas singelas, advindas tanto do protagonista quando dos outros personagens que colorem o enredo. Os autores não constroem arroubos dramáticos, quiprocós, pontos de virada que redirecionam a história para além da própria relação familiar. Ao contrário, a intenção se apresenta claramente intimista.

Assim, tudo se transforma em algo grande, memorável, até mesmo o simples ato de pais e filhos, juntos, olharem as estrelas. E talvez esteja aqui a grande mensagem do filme: o ato de resistir, de acreditar, com ternura. Mesmo quando tudo parece por demais difícil.

O filme traz, enfim, ao espectador a sensação de que, em momentos extremos, o que todos precisam é de um lugar de resistência. E a isso ele empresta nome e fixa lugar certo: família. A metáfora está no TEG (a versão argentina do WAR), na última partida que pai e filho disputam juntos, antes do clã se romper, vítima do regime político. Pela primeira vez, Harry consegue dominar quase todo o tabuleiro e conquistar 49 das 50 unidades territoriais em disputa. Naquele dia, o único lugar que não pode ser derrotado foi Kamchatka.

Até a próxima.

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