O objetivo é simples, embora audacioso: a tentativa de relatar, analisar, discutir, confrontar, criticar e respeitar tudo aquilo que permite admiração ou repulsa nos sons, nas telas, nos palcos e nos livros da vida.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Vamos falar na tora, sem tabu!
Embora o tempo passe e as décadas avancem, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais... Não se assustem com final da frase anterior, roubada do Belchior, aqui utilizada longe do contexto musical imortalizado na voz da Elis e, ao mesmo tempo, repleta de conteúdo em si, mesmo isoladamente. O fato é que eu sempre quis começar uma crônica assim. Consegui.
Regozijado, agora, ao ver um desejo realizado, sigamos adiante. Dia desses, acabou calhando d’eu assistir no cinema, pela segunda vez, o filme “Quebrando o Tabu” (Brasil/EUA, 2011, direção de Fernando Grostein Andrade). O motivo que me levou ao repeteco fílmico foi episódio singelo – aliás, os motivos que nos levam à ação costumam ser de ordem singela, no sentido de coisa “simples” e não de fato “inocente, ingênuo”, porque isso já é outra história e cá não apetece aprofundar.
Bem, o lance é que eu precisava escrever breve artigo sobre o panorama do cinema documentário brasileiro contemporâneo. E aí, compadre, é que são elas: descortinar conteúdo desta natureza de maneira sucinta não é fácil. Tem que deixar muita coisa de fora. É por isso que continuo em vias do traçado e ainda não terminei o texto. Mas, para estas linhas, que ora se produzem, importa afirmar que o filme citado não poderia ficar ausente de comentários.
“Quebrando o Tabu” pretende ser documentário sério, sobre assunto de imensa relevância: a maneira como os governos e as sociedades tratam a questão das drogas. O filme discute, sobretudo, a descriminalização dos entorpecentes e as maneiras não-violentas de combatê-los. E atinge o seu objetivo de maneira convincente, na medida em que faz com que o espectador reflita sobre o assunto. Para isso, utiliza-se de alguns recursos de linguagem que a estrutura documental vem desenvolvendo há algumas décadas: entrevistas, textos, computação gráfica, animações, arquivos. O excesso de música incomoda, mas não atrapalha o conteúdo que, afinal de contas, é o que verdadeiramente interessa.
A narrativa é ora capitaneada, ora pontuada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que percorre alguns países, como Estados Unidos, Holanda, Portugal e Suíça para revelar como estas nações tem tratado a questão. Por inúmeras vezes, no decorrer da película, nós, espectadores, somos lembrados que descriminalizar é diferente de liberar. As propostas nacionais, com maior ou menor grau de acerto, visam combater o traficante e ajudar o usuário, principalmente se ele for dependente, uma vez que, neste caso, os auxílios médico, social e psicológico são necessários.
Outras participações ilustres não faltam ao filme, como os ex-presidentes norte-americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Dráuzio Varella e o escritor Paulo Coelho. É interessante ouvir relatos diversos, que vão dos dependentes desconhecidos às celebridades formadoras de opinião. Também é bom saber que o FHC, aos 81 anos, está envolvido em tema urgente, plenamente disposto a contribuir na discussão – como tenho visto em seus últimos depoimentos –, a fim de que encontremos caminho lúcido para assunto problemático, que vem destruindo a vida de muita gente, desde os tempos de nossos pais.
Até a próxima, bicho.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Em tempos de precocidade máxima
Um sujeito me procurou outro dia com um material curioso: um curta-metragem produzido por seu filho. Apresentando-se como advogado trabalhista apaixonado pela Sétima Arte, o homem pedia que eu assistisse à obra do herdeiro, para que pudesse ajudá-lo a orientar o guri quanto ao caminho a seguir, no que diz respeito aos estudos de cinema. Essas coisas acontecem com quem leciona no meio audiovisual e, até aí, tudo bem. É inerente ao ofício. Mas, na maioria das vezes, a gente desconversa, pede desculpas, diz que irá dar uma olhadela quando tiver um tempinho e assim vai. A verdade é que quase ninguém tem tempo e/ou disposição de assistir tudo aquilo que pedem que a gente veja. É esse o fato. No entanto, o sujeito era simpático e educadamente insistente. Ao meio e ao cabo, acabei me rendendo à sua solicitação e assistindo ao filme.
O curta do garoto, feito em miniDV com recursos modestíssimos, jamais passaria de interessante, se o autor não fosse exatamente isso: um garoto. De treze anos! E aí, não teve jeito: coloquei-me a pensar nesta questão.
A questão é: o simples fato do garoto ter feito um filme, ou vídeo, como queiram (embora fazer qualquer coisa nesta área nunca seja propriamente simples), já é, em si, algo relevante. Legitima qualquer esforço. O diretor norte-americano Sidney Lumet (1924 – 2011), já dizia em seu livro “Fazendo Filmes” (Ed. Artemídia Rocco, Rio de Janeiro, 1998): “o primeiro filme de um diretor basta por si só”. Ainda que o termo “diretor” evidentemente não possa ser aqui aplicado, é notável o fato de um menino escrever um roteiro, decupá-lo, acender um refletor, montar um tripé, enquadrar uma câmera, gravar um vídeo com vários planos e cenas, e editá-lo, instintivamente, sem qualquer subsídio e contando apenas com a ajuda de alguns amigos.
A reflexão não se extingue aqui. Ao contrário, inicia-se. Esse garoto é o exemplo de como a nova geração está se relacionando com o cinema hoje, quer seja no tocante ao acesso a filmes para consumo particular, quer seja na absorção das possibilidades de realização audiovisual.
Este panorama contemporâneo é causa e efeito: as novas mídias, aliadas aos modernos mecanismos de veiculação/exibição de conteúdo, têm possibilitado que parte da população (ainda que pequena), desde muito jovem, trave contato com som e imagem, inserindo-se naturalmente neste sistema de consumo/produção/promoção. Além disso, o meio audiovisual evoluiu dentro desta lógica de ação e reação: a produção cinematográfica brasileira cresceu imensamente na última década, despertando o interesse de uma significativa parcela da nova geração, nas grandes e médias cidades, antenada aos novos veículos de comunicação, que permitem rápido acesso à informação e que, por sua vez, têm feito surgir a necessidade de capacitação, gerando assim escolas e cursos de cinema, capazes de colocar no mercado jovens ávidos em produzir e que, por sua vez, se aproveitam e/ou criam espaços para distribuição daquilo que produzem. Ufa, a última frase ficou enorme... Mas é possível que traduza a urgência do pensamento. E tudo isso sem falar nos mecanismos de incentivo – leis, editais, concursos –, em âmbitos federal, estadual e municipal, que também têm contribuído na construção desta realidade. Como resultado, temos um enorme volume de curtas-metragens sendo realizados nos últimos anos. Basta verificar as mostras e festivais nacionais: grande parte das obras inscritas e selecionadas nos últimos eventos têm, como autores, jovens realizadores, capazes de articular discursos atraentes, utilizando-se de técnica e gramática audiovisuais com consciência.
Traçando um escopo, percebe-se facilmente um cenário auspicioso, no tocante à formação de novos realizadores e técnicos.
Em um meio tão concorrido, onde os equipamentos/serviços de filmagem e de pós-produção são, desde sempre, bastante onerosos, saber que a formação de mão-de-obra e o interesse pelo nosso cinema é uma realidade pululante entre os jovens, deixa-nos otimistas quanto ao nosso futuro cinematográfico. Obviamente, ainda há muito que caminhar. Proporcionar a uma gigantesca parte da população a inclusão digital deve continuar como meta. Mas parece-me que, neste sentido, o Brasil caminha. De maneira lenta, mas caminha. Sigamos então.
[Artigo publicado na Revista do Cinema Brasileiro, em 19/07/11]
O curta do garoto, feito em miniDV com recursos modestíssimos, jamais passaria de interessante, se o autor não fosse exatamente isso: um garoto. De treze anos! E aí, não teve jeito: coloquei-me a pensar nesta questão.
A questão é: o simples fato do garoto ter feito um filme, ou vídeo, como queiram (embora fazer qualquer coisa nesta área nunca seja propriamente simples), já é, em si, algo relevante. Legitima qualquer esforço. O diretor norte-americano Sidney Lumet (1924 – 2011), já dizia em seu livro “Fazendo Filmes” (Ed. Artemídia Rocco, Rio de Janeiro, 1998): “o primeiro filme de um diretor basta por si só”. Ainda que o termo “diretor” evidentemente não possa ser aqui aplicado, é notável o fato de um menino escrever um roteiro, decupá-lo, acender um refletor, montar um tripé, enquadrar uma câmera, gravar um vídeo com vários planos e cenas, e editá-lo, instintivamente, sem qualquer subsídio e contando apenas com a ajuda de alguns amigos.
A reflexão não se extingue aqui. Ao contrário, inicia-se. Esse garoto é o exemplo de como a nova geração está se relacionando com o cinema hoje, quer seja no tocante ao acesso a filmes para consumo particular, quer seja na absorção das possibilidades de realização audiovisual.
Este panorama contemporâneo é causa e efeito: as novas mídias, aliadas aos modernos mecanismos de veiculação/exibição de conteúdo, têm possibilitado que parte da população (ainda que pequena), desde muito jovem, trave contato com som e imagem, inserindo-se naturalmente neste sistema de consumo/produção/promoção. Além disso, o meio audiovisual evoluiu dentro desta lógica de ação e reação: a produção cinematográfica brasileira cresceu imensamente na última década, despertando o interesse de uma significativa parcela da nova geração, nas grandes e médias cidades, antenada aos novos veículos de comunicação, que permitem rápido acesso à informação e que, por sua vez, têm feito surgir a necessidade de capacitação, gerando assim escolas e cursos de cinema, capazes de colocar no mercado jovens ávidos em produzir e que, por sua vez, se aproveitam e/ou criam espaços para distribuição daquilo que produzem. Ufa, a última frase ficou enorme... Mas é possível que traduza a urgência do pensamento. E tudo isso sem falar nos mecanismos de incentivo – leis, editais, concursos –, em âmbitos federal, estadual e municipal, que também têm contribuído na construção desta realidade. Como resultado, temos um enorme volume de curtas-metragens sendo realizados nos últimos anos. Basta verificar as mostras e festivais nacionais: grande parte das obras inscritas e selecionadas nos últimos eventos têm, como autores, jovens realizadores, capazes de articular discursos atraentes, utilizando-se de técnica e gramática audiovisuais com consciência.
Traçando um escopo, percebe-se facilmente um cenário auspicioso, no tocante à formação de novos realizadores e técnicos.
Em um meio tão concorrido, onde os equipamentos/serviços de filmagem e de pós-produção são, desde sempre, bastante onerosos, saber que a formação de mão-de-obra e o interesse pelo nosso cinema é uma realidade pululante entre os jovens, deixa-nos otimistas quanto ao nosso futuro cinematográfico. Obviamente, ainda há muito que caminhar. Proporcionar a uma gigantesca parte da população a inclusão digital deve continuar como meta. Mas parece-me que, neste sentido, o Brasil caminha. De maneira lenta, mas caminha. Sigamos então.
[Artigo publicado na Revista do Cinema Brasileiro, em 19/07/11]
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