sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

10 momentos cinematográficos inesquecíveis


Dia desses, peguei-me pensando nalgumas cousas, todas elas estranhas. Aliás, quase todo dia isso acontece. Dentre minhas bizarrices, questionei-me: “quais frases e diálogos proferidos em filmes podem ser considerados inesquecíveis?”. A resposta é fácil: aqueles que a gente não esquece, ora bolas. Por isso mesmo, já com a resposta entre os beiços, não precisam me perguntar porque me perguntei sobre algo tão imprescindível para a raça humana. Apenas julguei - naquele momento – que, de todas as cousas sem importância, talvez o cinema seja a mais importante. Ou será o teatro? A música? A literatura? Quer saber? Nenhuma delas. O mais importante dentre as cousas menos importantes é mesmo o futebol. Está decretado. E mais não digo, porque o segundo tempo já vai começar...

Voltaaando às frases fílmicas, eis que me deleguei o salutar trabalho de selecionar de cabeça – senhoras e senhores, vejam bem: de cabeça, sem recorrer à pesquisa – as 10 (dez) frases e/ou diálogos que, no meu parvo entendimento e gosto pessoal, são as melhores do cinema. Uau, acredito estar à borda de estabelecer novos paradigmas. Tal e qual Madonna quando gravou “Borderline”... Meu Deus, de onde eu tirei isso?

Sem mais delongas, vai a lista cientificamente elaborada (sic), incluindo preciosas rubricas de ação, sem as quais o “momento mágico” não poderia se fazer entender:

1. No filme catástrofe “Tubarão”, de Steven Spielberg, Roy Scheider se estupefaz ao ver o barco de Robert Shaw e Richard Dreyfuss, destinado à aventura marítima, que objetiva nada menos que a captura e destruição do grande monstro assassino que assola as águas da região. A frase de Scheider tem o poder da síntese de um gênio, em toda a sua mais absoluta perplexidade: “Acho que vocês vão precisar de um barco maior...”.

2. A ficção científica noir “Blade Runner”, de Ridley Scott, possui daqueles finais maravilhosos. Quanto a isso, todos concordam. Aliás, quanto a tudo neste filme, eu acho. O replicante de Rutger Hauer poderia fazer do Deckard de Harrison Ford picadinho de carne seca – ou melhor, molhada -, mas opta por salvar-lhe a vida. O último texto do andróide, segundos antes de apagar (literalmente) é tocante. Com o perdão da memória, a passagem é mais ou menos assim: “Eu tenho visto coisas através das galáxias, por todo esse universo sem fim, que vocês humanos jamais imaginariam, em sua visão limitada. E tudo isso vai se perder, como lágrimas na chuva”. Vale lembrar que na Terra de 2025 a chuva é ácida - e chove uma barbaridade, em tempo integral.

3. O já citado S.S. (Steven Spielberg) aprontou, no início dos anos 80 do longínquo séc. XX, o bacaninha “E.T.”. Uma das frases mais conhecidas da sétima arte é aquela proferida pelo próprio homenzinho verde, que possui os contornos de um saca-rolha moderno (ou será o saca-rolha que se parece com ele?). Em sua síntese puríssima, a frase carrega em si a força de um édito filosófico: “ET phone home”. Repitamos: “ET phone home”. Mais uma vez: “ET phone home”. Bonitinho demais.

4. No iraniano “Salve o Cinema”, o genial Mohsen Makhmalbaf (caramba, esse nome eu acho que vou ter que conferir...) dá uma lição de igualdade e esperança a todos que sonham viver a experiência de se ver na tela grande. Após passar todo o filme deixando-nos raivosos devido à sua aparente arrogância, o diretor - que “interpreta” a si mesmo – revela o motivo de todos aqueles testes de elenco realizados em Teerã. É algo mais ou menos assim o seu pronunciamento ao final da película: “Vocês todos que acabaram de fazer estes testes, na verdade, acabaram de fazer um filme. Isso aqui já é o filme. Todo mundo fez o filme. E o que isso prova? Que o cinema é para todos!”. Sabe das cousas, esse Mohsen...

5. John Boorman é inglês – eu acho – e responsável pela melhor adaptação para o cinema da lenda do Rei Arthur que, diga-se de passagem, é qualquer cousa de fascinante. Pois é. O diretor presenteou a todos com o melhor da festa: sua primorosa visão de Merlin, Morgana, Arthur e cia. Logo no início, vemos o rei Uther Pendragon desejar loucamente a bela Igraine. O nobre pede ao mago Merlin que use de feitiço para ajudá-lo a satisfazer seu apetite sexual pela mulher cujo marido acabara de morrer em batalha. E Merlin, safo como ele só, dispara a pérola: “Pedes-me que o ajude. Muito bem, saibas então que o fruto da sua luxúria será meu”. Mal sabia Uther que o mago estava se referindo ao bebê Arthur, assim que nascesse. Após a consumação do ato lascivo, o druida ainda arremata para as estrelas: “O futuro plantou suas raízes no presente”. É óbvio, mas é jóia isso, não é?

6. “Assassinos por Natureza” - filme que, aliás, não gosto, nem a porrete -, escrito e dirigido por Oliver Stone, a partir de argumento Tarantinesco, tem a célebre frase de Juliette Lewis, num diálogo com Tom Sizemore. O sujeito quer que ela aperte e morda seus mamilos. Ela, não se fazendo de rogada, dispara: “Humm, you so specific!”. É isso aí, bicho. Essa fica no inglês mesmo. A sonoridade é tão bacana na língua de Shakespeare que não carece tradução para nosso código secreto em vias de mudança, também conhecido por português.

7. Em “Os Imperdoáveis”, o diretor Clint Eastwood (a propósito, Clint é como vinho: quanto mais velho, melhor) interpreta o ex-assassino William Mannie, enquanto Gene Hackman faz Little Bill, delegado de uma cidadezinha americana no meio do absolutamente nada. Morgan Freeman é Ned, outro ex-criminoso, amigão de Will. Ned é espancado até a morte por Little Bill. Ao tomar conhecimento da lambança feita pelo delegado, Will – devidamente turbinado de uísque – adentra a espelunca onde o delegado e seus valentões comemoram a morte do bandido, cujo corpo enfeita a fachada, num caixão podrão. O fragmento do diálogo:
L.B.: “Você é William Mannie, assassino de mulheres e crianças do Missouri, não é?”.
W.M.: “Sou eu mesmo. Já matei quase tudo que anda e rasteja. E estou aqui para matar você, Little Bill”.
Nossa, dá até medo. Coitado do Gene Hackman.

8. Ainda em “Os Imperdoáveis”, antes de deitar uísque pela goela e voltar a ser um assassino impiedoso e vingativo, Will divaga com seu comparsa Kid (não me lembro o nome do ator) algo que merece reflexão profunda. Cabe aqui uma pequena explicação: Kid é o rapazote que convidara Will – que, por sua vez, convidara Ned – para vingar a prostituta que teve seu rosto imperdoavelmente retalhado com navalha por dois vaqueiros toscos (daí o título do filme). Aquele que botasse os agressores a sete palmos da superfície terrestre, receberia U$ 1.000,00 de prêmio, valor levantado através de “vaquinha” entre as outras prostitutas da cidade. Acreditem, mil dólares em 1880 e alguma cousa era dinheiro que não acabava mais. Hoje em dia... Muito bem, voltemos à divagação de Will: o cara deixa suas palavras escorrerem pela boca, direcionadas a Kid, que acabara de matar - na privada! - um dos vaqueiros, que fazia um danado dum cocô. O texto: “Matar alguém é a coisa mais terrível que se pode cometer. Você tira da pessoa tudo que ela tem e tudo que algum dia ela poderia ter”. Pergunto-me se existe frase mais verdadeira que esta, lamentavelmente ignorada desde o princípio dos tempos.

9. Michael Mann é o cara. No espetacular “Fogo contra Fogo” (leia-se Al Pacine x Robert De Niro), além de equilibrar maravilhosamente dois gigantes do cinema norte-americano, há diálogos supimpas. Num deles, o bandido Neil – personagem de Mr. De Niro – descobre que fora traído pelo empresário Van Zant, de cujo ator nunca me lembro o nome. Emputecido, Neil descola o telefone do gancho, disca para o empresário traidor e vocifera sua profecia. Exertos do diálogo:
N.: “Van Zant?”.
V.Z.: “O próprio”.
N.: “O telefone está mudo”.
V.Z.: “O que?”.
N.: “Está mudo. Tem ninguém aí, do outro lado da linha”.
V.Z.: “O que??”.
N.: “Eu estou falando com um cadáver”.
TOC! – “Toc!” é sonoplastia para “Neil coloca com força o fone no gancho”. Guapas y muchachos: escutar isso do Neil não é boa cousa. Definitivamente. Van Zant cortou na hora mais pregos que a marcenaria aqui da esquina corta numa semana inteira.

10. No clássico “Uma Rua Chamada Pecado”, de Elia Kazan - versão cinematográfica da peça homônima de estrondoso sucesso na Broadway, adaptada da obra “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams -, Marlon Brando faz ninguém menos que Stanley Kowalski, um dos mais charmosos crápulas da história do cinema e – por que não? - do teatro. Tentando ser objetivo, nem vou citar Vivien Leigh, Kim Hunt e Karl Malden nos outros papéis principais, por mais que mereçam (o Oscar daquele ano que o diga...). Ao final do filme, ao pé da escada, Brando dispara a célebre frase de Kowalski: “Steeeeellaaa!!!”. E como esta, com a profundidade desta, outra jamais se ouviu.

Fico por aqui, anunciando ter gostado do serviço e concluindo que escolher dez entre milhões de frases é tarefa ingrata. Melhor seriam cem, talvez mil. Ainda assim, o negócio seria uma trombose. Legal mesmo foi perceber que, mesmo após uma data sem assistir a estes filmes, acabei me recordando de todos com razoável precisão. Ainda bem que esta empresa se deu exatamente como propagandeei no início: descrever passagens paradigmáticas, memoráveis, sem qualquer consulta prévia e póstuma, numa sentada só. Tudo sem a menor importância, é claro, mas que preencheu uma parte importante do meu preciosíssimo tempo.

Encerro em definitivo com a mais inolvidable de todas as frases fílmicas, na melhor interpretação de todos os tempos (sic, sic): “Hasta la vista, baby”.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Speak English, Maria Elena!


Em seu novo filme “Vicky Cristina Barcelona”, Woody Allen mostra mais uma vez porque é um dos grandes gênios do cinema. E não é muito difícil compreender esta afirmação. Em três breves atos, posso explicar com certa facilidade, sem muito aprofundamento. 1o. ato: sua perspectiva é absolutamente pessoal, onde se percebe sua visão melancólica do mundo, com o extraordinário “toque de autor”. 2o. ato: seus personagens são “caixinhas de surpresa”, arapucas, capazes de tomar atitudes surpreendentes a qualquer momento. 3o. ato: um verdadeiro artista trabalha, quase sempre, com a simplicidade. Woody sabe tão bem disso que não inventa firulas, nem fica com baboseiras – sim, porque muita coisa boa, de tão utilizada, acabou virando bobagem – que hoje abundam as telas de cinema: enredos não lineares vertiginosos, entupidos de efeitos especiais; mocinhos galantes; beldades em apuros; invencionices high tech; vilões com roupas de grife e diálogos cool (alguém consegue me ajudar, traduzindo isso aí?). Suas tramas são perfeitamente compreensíveis e, por mais inusitadas que possam parecer, absolutamente verossímeis. Enredo e personagem tornam-se causa e efeito: encaixam-se maravilhosamente um no outro. Até os clichês vêm na medida. Sem falar que há sempre alguma mensagem a tirar de seus filmes. E sem lição de moral – coisa terrivelmente desagradável.

Desdobremos o pensamento: encontrar uma Vicky ou uma Cristina na exótica Barcelona seria o máximo! Aliás, nem é preciso ir tão longe. Aqui na prosaica BH City mesmo já seria estupendo! Uma Rebecca Hall atravessando a Rua Mármore deixaria qualquer marmanjo engasgado. Uma Scarlett Johansson cruzando a Praça de Santa Tereza desmaiaria muitos muchachos experientes, com larga quilometragem. E que tal uma Penélope Cruz? Paramos o bairro. Pronto: está resolvida a questão!

Entre mortos e feridos, só não dá pra encarar uma Maria Elena – a personagem de Penélope no filme de Mr. Allen. O espetacular Javier Bardem que o diga: mesmo pedindo à moçoila para falar inglês durante boa parte da película, Dona Maria Elena insiste no espanhol, em meio a tentativas de suicídio e assassinato. Vejam só: o final desta frase revela um caso clínico dos mais rentáveis, por supuesto.

Falemos agora de vencedores. Não que os personagens woodyanos não o sejam: há aqueles que se dão mal, é verdade, mas existem outros tantos vitoriosos. Tal e qual na vida, um e outro se definem por questões de caráter, de oportunidades e de escolhas. Em nosso caso, refiro-me tão somente aos ganhadores da promoção realizada em nossa simpática freguesia. Explico: na edição do mês passado, comprometi-me a divulgar os nomes vitoriosos dos presenteados com o CD da Banda Basset Quartet, num audacioso investimento desta coluna, destinado aos três primeiros que me enviassem agradável mensagem eletrônica. Aí vão eles: Sílvia Torres, Marisa Félix e Eduardo Faria. Parabéns e obrigadíssimo por acompanharem estas linhas.

Muito bem, pessoal: Gajan Kristnaskon a todos. Como assim, não entenderam? Tudo bem, vá lá: o termo significa “Feliz Natal” em Esperanto. Afinal, é disso que precisamos: felicidade, paz, saúde e esperança. O resto é conseqüência.

Até a próxima!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A sapatada histórica


Munthadar al-Zeidi, jornalista, muçulmano. Alguém o conhece? Nos últimos dias, este cidadão tem ocupado parte da imprensa mundial. Não conheço sua ficha pessoal, mas posso afirmar que estamos falando de um sujeito corajoso. Mais que isso: bastante corajoso e igualmente revoltado. Pena que sua pontaria não seja das melhores... "Muntha, saindo da cadeia, vê se treina tiro ao alvo, pô!". Em tempo: prenderam o cara. Repito: prenderam o cara! E aquele que deveria estar encarcerado, numa das prisões que a muitos relegou? Ah, esse anda solto por aí, sorrindo como um cretino para o mundo e fazendo mais estrago que pitbull raivoso em jardim de infância. Desculpem-me a analogia de mal gosto - eu sei, é péssima -, mas George War Bush promoveu imagens miseravelmente piores que esta nos últimos tempos. Pensar que foram precisos dois mandatos e quase oito anos pra alguém ter coragem de jogar-lhe os sapatos...

Passa-se o homem, avança-se o tempo, substituem-se as gerações. No final das contas, tudo se transforma em pó. Mas enquanto aqui estivermos - sorrindo, chorando, sonhando, lutando, amando, sofrendo -, que tal se pensássemos um pouco menos em nós mesmos e um pouco mais no outro? Ninguém precisa ser santo, basta ser decente. Ou, pelo menos, deixar de ser cretino.

Sou pacífico, abomino a violência - em todos os seus estados e graus -, mas às vezes um par de sapatos vem muito a calhar. Tal e qual Aristófanes na antiga Atenas, sempre apregoo a paz; em tempos modernos, entretanto, é muito bom soltar um "FUCK BUSH!".

Termino com um pedido: justiça iraquiana, liberta o al-Zeidi! O sujeito com um par de calçados fez mais que muita gente com voz e poder.

E que o Santo Obama nos projeta, é claro!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Poética [1]


SHKPR - Soneto #116

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

Adoro isso aí. Muito. A propósito: se tiverem a oportunidade de ler parte dos 157 sonetos que formam a série shakespeariana, façam-no. Degustem o texto e sintam a melodia. Shakespeare é música! Qualquer coisa qu'eu disser sobre Shkpr estarei sendo redundante e, por mais imodéstia que exista na parte final do soneto 116, termino por parafrasear Ben Jonson, ao concluir que o cara não foi do seu tempo, foi eterno!

Saludos!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fã é fã, até na tonga da mironga...


Na tentativa de fechar um show em Porto Alegre, para por lá tocar com minha banda, acabo conhecendo pelo telefone um tal gaúcho que se diz fã do Clube da Esquina. Obviamente, não poderia deixar de mencionar que escrevo mensalmente para o jornal do bairro onde surgiu o famoso “clube”, além de residir e trabalhar na mesma freguesia. Sujeito ficou maravilhado. Disse ter o disco no. 1, lançado em 1972, com aqueles dois guris na capa. Aliás, como não falar da capa? Provavelmente, das mais simples e, por isso, mais belas fotos de capa de disco que já vi. Antigamente (!), vinil na mão dava um prazer danado. Era objeto de desejo. Hoje, é tudo virtual. Basta a internet, o arquivo MP3, o download e os iPods da vida... Bem, bem, voltando ao cidadão dos pampas, acho que facilitamos as coisas. A conversa equalizou, por afinidade sonora. Muito breve estaremos tocando em POA, para nosso regozijo musical. Oxalá.

Longe de fazer propaganda – mas, ainda assim, já fazendo –, no final do texto comento sobre a banda, pois a história sulista não acaba aqui. Já repararam como gaúcho é bairrista? Pelo menos, meu novo amigo porto-alegrense é. Assim como também é o paulista, o carioca, o baiano, o colombiano, o venezuelano, o tonganês. Adoro explicações. Então, lá vai: tonganês é o nativo de Tonga, um arquipélago da Polinésia, formado por inúmeras ilhotas, com área total de 747 km² e população de 114.422 habitantes, segundo o levantamento mais recente. Povo de lá adora água de côco, carne de porco e, durante o dia, costuma andar de sarongue – um saiote colorido usado por ambos os sexos, que encobre a metade inferior do corpo. Pois é, algum dia, compro um desses... Pra dar de presente, é claro. Mais sobre Tonga: até hoje, o país é uma monarquia constitucional, sendo que sua população confia piamente em seu sistema de governo e em seu rei, que atende pelo simpático nome de Taufa’ahau Tupou V.

Deixando a tonga da mironga pra lá – com todo o respeito –, não posso deixar de citar que o belo-horizontino poderia ter um pouquinho mais de orgulho de sua cidade. E assim, valorizar seus “nativos”. Basta percebermos que, para ter notoriedade aqui, na maioria das vezes, sujeito tem que ganhar nome “lá fora” (leia-se Rio e São Paulo). Aí passa a ser admirado, em meio a estes nossos aclives e declives cobertos de bares. Sem falar no fato de que temos, artisticamente entre nós infiltrados, pesos pesados na música, no teatro, na dança, na literatura, nas artes plásticas, no audiovisual e etc e tal, de inegável relevância cultural para todo o continente brasilis.

Sobre a banda? Certo, falemos rapidamente: o grupo se chama “Basset Quartet”. Em agosto, lançamos um CD instrumental, com músicas de nossa autoria, originalmente compostas para o espetáculo teatral “Macbeth 0.8”, adaptado da tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare. Querem ver como esta coluna não brinca em serviço? Pois bem: os três primeiros leitores que enviarem mensagem para o endereço eletrônico lá de cima receberão, com absoluta gratuidade, um exemplar do CD. Presentinho de Natal. No próximo mês, os premiados terão seus nomes divulgados nestas linhas. A coisa é séria: aqui não há falcatruas de qualquer natureza, pois acreditamos piamente na honestidade e em nosso sistema democrático constitucional. Tal e qual os tonganeses crêem em seu regime político, social e alimentar. Com ou sem sarongue.

Até a próxima!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Cena de "Macbeth 0.8"

Juliano Jubão (guit.), Cláudio Costa Val (bx.), Luiz Garcia (bat.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Terapêutica planetária


Pelas páginas do jornal, pela tela do computador, pelo informativo da rádio, pelo noticiário da tv, pela janela do escritório e pela torneira da cozinha fico sabendo que a economia mundial está em crise. Segundo analistas de plantão, uma das piores – senão a pior – crise desde o crash da bolsa de 29. Pensar que andei gastando meu dinheirinho com umas bobaaagens... Previsão de juros altos e alguma inflação pela frente. Previsão da vitória de Obama ou de McCain lá, no hemisfério de cima; de Lacerda ou de Quintão aqui, na cidade horizontina. É como já dizia Nelson Rodrigues: “batata”. Ou seja, previsões inteligentíssimas, com 100% de acerto.

Tenho pensado coisas estranhas ultimamente. Parece-me que o mundo anda sofrendo de um certo transtorno afetivo bipolar. Não sou psicólogo, mas sei que o transtorno bipolar é uma doença relacionada ao afeto, que se caracteriza por alterações do humor, com episódios depressivos e maníacos ao longo da vida. Doença crônica, de proporções mundiais, acomete cerca de 1,5% da população deste planeta. Opa, que tolice o final desta última frase. É claro que se trata deste planeta. Mesmo porque não posso falar de outro, uma vez que só conheço este, habitado e, ainda, habitável.

Pois é, o mundo anda bipolar. Tomando a economia e o clima como exemplo, fica fácil perceber as mudanças bruscas de humor. Num dia, vem o dólar e fecha a R$ 2,52. Noutro, cai a R$ 2,18. E no seguinte, sobe a R$ 2,41. Falta de graça. E o clima? Segunda-feira estamos no verão; terça-feira no inverno; quarta-feira voltamos ao verão; quinta-feira já é outono e na sexta-feira novamente chega o inverno. É isso mesmo, o mundo anda sofrendo pela falta de afeto dos seres “pensantes” que nele habitam. Ou pior. Anda sofrendo pela falta de amor-próprio.

Como não podia deixar a peteca cair, tratei de procurar no cinema algum filme que pudesse me devolver a esperança na terapia para salvação do planeta. Abro o jornal e vasculho o roteiro dos filmes em cartaz, na expectativa de encontrar aquele que se encaixe na premissa. Rabisco um filme detestável aqui, circulo uma mera possibilidade acolá. E eis que encontro um título. A tradução, na língua de Camões, que agora deverá ser uma só: “A Caçada”. O original, na língua de Shakespeare, que mundão afora fala de tudo quanto é jeito: “The hunting party”. O filme é dirigido por Richard Shepard, o mesmo diretor de “O Matador” e “24 Horas para Morrer”. Pelos títulos de seus filmes, podemos esperar, no mínimo, alguns banhos de sangue... No elenco, o astro Richard Gere. Nunca fui seu fã, nem um pouco, mas vá lá. A minúscula sinopse desperta alguma curiosidade: “um telejornalista e seu cameraman investigam o paradeiro de um criminoso de guerra”. Taí, isso aí precisa ser falado. Lá fui eu.

Finalizada a sessão, concluo que não se trata de uma obra espetacular, mas que cumpre a sua função. Não me renovou os ânimos planetários; ao contrário, acentuou minha indignação em relação ao cenário político mundial.

Ao falar da guerra da Bósnia, Shepard deixa no ar aquilo que, de alguma maneira, já sabemos. Como é que a ONU, a OTAN, os USA e outros não encontram há anos um criminoso que um jornalista encontrou em três dias? Deixo a resposta para o Bush. Ou para o Bin Laden. Afinal, tudo não passa lamentavelmente de um jogo de interesses.

Até a próxima!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Ensaio sobre a incomunicabilidade


_ E aí?
_ Colé?
_ Bão?
_ Belessa!
_ O ingress?
_ Tá quí.
_ Massa.

Fiquem tranqüilos, não se trata de um diálogo em dialeto de alguma tribo da África Central. Antes pelo contrário, é daqui mesmo, das Alterosas. Aconteceu à porta de um cinema, em um destes shoppings abarrotados de gente que vem, gente que vai. A conversa dos dois rapazes foi por mim presenciada, através dos sentidos da audição e da visão. Bem a propósito, à entrada de uma das sessões do filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, adaptado do romance homônimo de José Saramago e dirigido pelo habilidoso Fernando Meirelles, o mesmo de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”.

O livro foi publicado em 1995 e traduzido para vários idiomas, tornando-se uma das mais famosas obras do português Saramago, juntamente com “Todos os Nomes”, “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”. Em 1998, o autor foi agraciado com o Prêmio Nobel da Literatura. Sensacional.

No Brasil, "Ensaio sobre a Cegueira" ganhou recente versão teatral no Rio de Janeiro, dirigida por Patrícia Zampiroli. A versão cinematográfica mundial chega agora às telas nacionais, após (e paralelamente) a carreira no exterior. Com as devidas diferenças, que nunca devem ser esquecidas quando falamos de filmes criados a partir de obras literárias, a película consegue passar o que o livro tem de singular: seu estranhamento. Do começo ao fim, causa-nos aquela sensação incômoda. Saramago metaforiza, através da perda da visão, a perda da condição humana, da comunicabilidade, colocando em evidência a natureza boa e má do homem, mostrando que cabe a cada um de nós escolher o caminho a seguir. A “cegueira branca” do enredo ganha branquidão na tela, deixando-nos – personagens e espectadores – momentaneamente sem ação. Na condução da trama, é impressionante a atuação de Julianne Moore, uma atriz com precisão quase milimétrica na construção de seus personagens.

Outro filme que anda ocupando as salas de cinema com êxito país afora é “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito”, dos diretores Glauber Filho e Joe Pimentel. Enquanto filme, apresenta vários problemas, mas enquanto mensagem, é absolutamente necessária. O homem Adolfo Bezerra de Menezes – que a maioria dos brasileiros não conhecia – é lição para todos nós. A vida precisa ter sentido. Um sentido que cada um encontra por si mesmo, mas que a chave está na solidariedade e na caridade em relação ao próximo.

Até a próxima!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Um ano centenário


No ano em que se reverencia o centenário do nascimento de João Guimarães Rosa e o centenário da morte de Joaquim Maria Machado de Assis, pergunte-me baixinho, daqui mesmo, destas montanhas de uma cidade pouco mais que centenária: e daí? Sim, e daí, sô? Nascia o Rosa em Cordisburgo, a 27 de junho de 1908; morria o Machadão no Rio de Janeiro, a 29 de setembro do mesmo ano. Dois dos maiores autores da língua portuguesa. É bom repetir: da língua portuguesa! Essa mesma língua, falada em toda terra brasilis, herdada de nossos patrícios e diariamente aviltada em falsos comícios... Esse governo que rege esse gigantesco país deveria se inspirar em datas como esta e tomar atitudes verdadeiramente sérias (e sábias) em prol de nossa educação. Se perguntarem por aí quem são estes dois gigantes da literatura, a grande maioria de nosso povo não saberá responder. “Passa o homem, eterniza-se sua obra”, como já dizia o filósofo. Nós, o povo, precisamos aprender, conhecer, evoluir.

Vários eventos têm marcado este ano centenário. No mês de junho, no Rio de Janeiro, participei com um curta-metragem da mostra “Memórias Cinematográficas de Machado de Assis”. O filme “A Cartomante”, por mim dirigido e adaptado do conto homônimo do Machadão, fala de algo terrivelmente antigo: um triângulo amoroso com final trágico. A tragédia, aliás, faz parte de nosso cotidiano. Basta abrirmos os jornais.

Já que falamos em cinema, no dia 28 de setembro, completam-se 113 anos da primeira projeção pública do cinematógrafo. De nome estranho, o cinematógrafo era, ao mesmo tempo, uma máquina de filmar e um projetor de cinema. Foi inventado em 1892, por Léon Bouly. Mas, ao que parece, o sujeito acabou perdendo a patente de sua criação, posteriormente registrada por Auguste e Louis Lumière. Coisas da vida... Por esta e outras razões, os Irmãos Lumière são considerados os fundadores da Sétima Arte.

A projeção cinematográfica inaugural aconteceu na primeira sala de cinema do mundo, o “Eden”, situada em “La Ciotat”, no sudeste da França. Imaginem a sensação daqueles que, pela primeira vez, viram imagens em movimento, projetadas numa tela. Segundo dizem, muita gente saiu correndo, desembestada. Algo certamente assustador.


Desde então, o cinema fascina, ensina, comove, promove, discute e embute em cada um de nós um pouco daquilo a que podemos chamar de “a grande experiência humana”. Ou simplesmente: a vida.

Até a próxima!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Precisa comentar?

Nada melhor para começar um blog do que uma inspiração como esta.

E seguimos felizes.