Meu iguana fugiu. Ingrato. Rodolfo, o nome dele. Pensar que o alimentei desde bebê, dando-lhe todos os insetinhos que gostava... Quando o ganhei, tinha o tamanho de um calango. Um ano depois, parecia um estrangeiro, recém chegado de Galápagos. O bicho era enorme! Por isso mesmo, as crianças do prédio o adoravam. Fim de semana, lá ia o papai aqui radiante com Rodolfinho na coleira. Dá pra acreditar? Saía com ele à base de coleira. Forte, o bicho; dava solavanco. Primeira vez que a meninada o viu, foi inesquecível. “Alá, mãe, alá: um jacaré! Um jacaré!”. O guri ficou todo arrepiado, seus olhos esbugalharam. E ele ainda fazia: “Uh, uh, sai pra lá, jacaré!”. Teve outro moleque, menorzinho, que disparou: “nó, que largatixão!”. Assim mesmo: largatixão, com o “r” fora do lugar.
Rodolfo era educado. Silencioso que só ele. E o melhor: asseado feito galã de novela da Globo com apartamento na Barra. É isso mesmo: se alguém pensou que confundi asseado com assediado se enganou redondamente. Ou alguma pessoa duvida que os atores bonitões estejam sempre limpinhos? Pois é, meu iguana jamais fazia suas necessidades fisiológicas fora de sua “terrinha” – um caixotão enorme de madeira estrategicamente revestido de areia, com umas plantinhas, uns pedregulhos e um laguinho. Tudo pra deixá-lo “em casa”. Vez em quando lhe dava um surto e ele mexia o rabo gigantesco, fazendo voar areia até as cucuias. Acho que foi por isso que a minha “free lancer” o deixou escapar – se não foi ela, fui eu. Será que a culpa foi minha? Mas como é possível um jacaré fugir de um apartamento, sem ser visto por um mísero ser humano? Falar a verdade, mesmo já tendo passado algum tempo, uma lebre me diz que ele ainda se encontra pelas redondezas, fazendo-se de besta. Vai ver se enrabichou pela cachorra da vizinha. Não me entendam mal: a vizinha não é uma cachorra. Ao contrário, sempre se demonstrou muito certinha e ajuizada. Tem namorado sério e tal. Mas possui uma cadela, que vivia fungando o cangote do Rodolfinho. Depois a cachorra vem achar ruim...
Andei desesperado. Até chamadinha nos Pequenos Anúncios coloquei. Chamadinha mesmo, porque o preço dessas coisas anda bom não. Reflexos da crise. E Rodolfinho me inventa fugir justo agora! Desnaturado, filho de uma... uma... iguana! Lá se foi a minha companhia nos dias chuvosos, bem ao gosto de Noé; ou nos dias de calor senegalês, cada vez mais frequentes. Saudade de um friozinho norueguês. Quando tem de novo? Ibsen, ajude-nos!
Mas, por que tudo isso? Por que dedicar tantas linhas a um réptil? Ora, ora, é simples: a história de mestre Rodolfo daria um belo roteiro para filme. Como também fariam belos enredos o casal de Poodle que hoje abrigo entre minhas paredes, cada vez menos brancas. Sofia e Cabeça, seus nomes. Ou as dezenas de minúsculos peixinhos Guppy, trazidos duma fazenda, que mantenho num aquário de treze litros.
Aliás, pensando cá com meus botões, bicho e cinema sempre combinaram. Cachorros, porquinhos, veadinhos, leões, lobões e ogros sempre renderam belas fábulas. Dá vontade até de saber alguma coisa sobre a evolução das espécies. Mas sobre isso deixo a palavra para o naturalista britânico Charles Robert Darwin, cujo nascimento deu-se há exatos duzentos anos. É isso aí: o homem passa; os bichos permanecem.
Até a próxima.
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