sábado, 10 de janeiro de 2009

A infidelidade dos répteis


Meu iguana fugiu. Ingrato. Rodolfo, o nome dele. Pensar que o alimentei desde bebê, dando-lhe todos os insetinhos que gostava... Quando o recebi, tinha o tamanho de um calango. Um ano depois, parecia um estrangeiro, recém chegado de Galápagos. O bicho era enorme! Por isso mesmo, as crianças do prédio o adoravam. Fim de semana, lá ia o papai radiante com Rodolfinho na coleira. Dá pra acreditar? Saía com ele à base de coleira. Forte, o bicho; dava solavanco. Primeira vez que a meninada o viu, foi inesquecível. “Alá, mãe, alá: um jacaré! Um jacaré!”. O guri ficou todo arrepiado, seus olhos esbugalharam. E ele ainda fazia: “Uh, uh, sai pra lá, jacaré!”. Teve outro moleque, menorzinho, que disparou: “nó, que largatixão!”. Assim mesmo: largatixão, com o “r” fora do lugar.

Rodolfo era educado. Silencioso que só ele. E o melhor: asseado feito galã de novela da Globo, com apartamento na Barra. Ou no Leblon. É isso mesmo: não confundi asseado com assediado; é proposital. Ou alguém duvida que os atores bonitões estejam sempre limpinhos? Pois é, meu iguana jamais fazia suas necessidades biológicas fora de sua “terrinha” – um caixotão enorme de madeira estrategicamente revestido de areia, com umas plantinhas, uns pedregulhos e um laguinho. Só não tinha peixe. Tudo pra deixá-lo “em casa”. Vez em quando lhe dava um surto e ele mexia o rabo – gigantesco! -, fazendo voar areia até as cucuias. Acho que foi por isso que a minha free lancer o deixou escapar – se não foi ela, fui eu. Será que a culpa é minha? Mas como é possível um jacaré fugir de um apartamento, sem ser visto por um mísero ser humano? Falar a verdade, uma lebre me diz que ele ainda se encontra pelas redondezas, se fazendo de bobo. Vai ver se enrabichou pela cachorra da vizinha. Não me entendam mal: a vizinha não é uma cachorra. Ao contrário, demonstra ser muito certinha e ajuizada. Tem namorado sério e tal – uma pena, enfim. Mas possui uma cadela, que vivia fungando o cangote do Rodolfinho. Depois a cachorra vem achar ruim...

Estou desesperado. Até chamadinha nos Pequenos Anúncios já coloquei, na tentativa de encontrá-lo. Chamadinha mesmo, porque a crise oriunda do Tio Sam já bateu descaradamente aqui na porta. Sem pedir licença nem desculpa. E o Rodolfo me inventa de fugir justo agora! Desnaturado, filho de uma... uma... uma iguana! Lá se vai minha companhia nos dias chuvosos, bem ao gosto de Noé; ou nos dias de calor senegalês. Saudade de um friozinho norueguês. Quando tem de novo?

Negócio anda feio. Tentando aplacar a solidão devastadora que se instala à noite, desbotando as cores do dia, fiz inscrição num destes sites de relacionamento. Sob pseudônimo, é claro, pois detesto autoexposição (e agora, com o tal acordo ortográfico imbecil elaborado por panacas à toa, fica assim?). Pois é, me cadastrei numa página - que me prometeu o amor da minha vida -, em busca de uma simples mulherzinha. Uma só, umazinha. Já está bom. Vejam como a carência transforma o homem num enorme inseto; soca no ralo sua autoestima (putz, ó a inhaca da grafia de novo aí). Sujeito aqui, da melhor estirpe latin lover, com traços explícitos de Armand Assante e Antonio Banderas, apelando assumidamente pra internet. Cuño, mulher nunca foi problema, mas ultimamente anda parecendo mercadoria em falta, aqui na Capital das Alterosas. Ou sou eu que perdi o feeling? Morris Albert, me ajude... E olha que internet pra mim sempre foi ferramenta secundária: nunca tive orkut, não uso MSN, mal respondo meus e-mails particulares – só aqueles de natureza profissional. E agora aqui estou, cadastrado num site, em busca de um belo espécime do sexo oposto. Vontade de chorar. Lágrimas de jacaré.


Se bem que, na vida, algumas experiências são deveras fortificantes. Comprovar que a mulherada anda mais desesperada que os machos de plantão dá um certo alento a estes mesmos machos, naturalmente. Se forem muito exigentes, entretanto, os machos continuam chupando o dedo, com doses cavalares de testosterona... Senhoras e senhores: para a minha estupefação, a quantidade de mulher atrás de homem não está no mangá (muito menos no gibi). Sobretudo aquelas que procuram... sexo! E casadas! É isso aí, amiguinho. Mulheres comprometidas que procuram relacionamento sem compromisso ou – como opção menos explícita, mas com o mesmíssimo propósito - para “encontro casual/diversão”. Sinal dos tempos. Sobram-se fêmeas na praça por falta de machos? Sobram-se homens por que faltam mulheres? Garotas? Rapazes? Belo Horizonte e San Francisco: há alguma semelhança?

A esperança é a última que bate o pacau - dizem aos borbotões desde priscas eras. Por isso sigo aqui, na humilde esperança de encontrar representante do sexo feminino que preencha meus anseios cavalheirescos de notória fidalguia. Sei não. Mais fácil entrar na era do “encontro casual/diversão” e descobrir uma legítima filha de Eva, para presentear-lhe com inúmeras maçãs suculentas. Cruzes, agora eu exagerei na tinta. Apelei feio!

Tudo isso por conta do Rodolfo, aquele safado. Ingrato duma figa. Mas tem nada não, já sei o que vou fazer: amanhã compro um papagaio. Já sei até o nome: Rodrigo.

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