terça-feira, 16 de setembro de 2008

Ensaio sobre a incomunicabilidade


_ E aí?
_ Colé?
_ Bão?
_ Belessa!
_ O ingress?
_ Tá quí.
_ Massa.

Fiquem tranqüilos, não se trata de um diálogo em dialeto de alguma tribo da África Central. Antes pelo contrário, é daqui mesmo, das Alterosas. Aconteceu à porta de um cinema, em um destes shoppings abarrotados de gente que vem, gente que vai. A conversa dos dois rapazes foi por mim presenciada, através dos sentidos da audição e da visão. Bem a propósito, à entrada de uma das sessões do filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, adaptado do romance homônimo de José Saramago e dirigido pelo habilidoso Fernando Meirelles, o mesmo de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”.

O livro foi publicado em 1995 e traduzido para vários idiomas, tornando-se uma das mais famosas obras do português Saramago, juntamente com “Todos os Nomes”, “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”. Em 1998, o autor foi agraciado com o Prêmio Nobel da Literatura. Sensacional.

No Brasil, "Ensaio sobre a Cegueira" ganhou recente versão teatral no Rio de Janeiro, dirigida por Patrícia Zampiroli. A versão cinematográfica mundial chega agora às telas nacionais, após (e paralelamente) a carreira no exterior. Com as devidas diferenças, que nunca devem ser esquecidas quando falamos de filmes criados a partir de obras literárias, a película consegue passar o que o livro tem de singular: seu estranhamento. Do começo ao fim, causa-nos aquela sensação incômoda. Saramago metaforiza, através da perda da visão, a perda da condição humana, da comunicabilidade, colocando em evidência a natureza boa e má do homem, mostrando que cabe a cada um de nós escolher o caminho a seguir. A “cegueira branca” do enredo ganha branquidão na tela, deixando-nos – personagens e espectadores – momentaneamente sem ação. Na condução da trama, é impressionante a atuação de Julianne Moore, uma atriz com precisão quase milimétrica na construção de seus personagens.

Outro filme que anda ocupando as salas de cinema com êxito país afora é “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito”, dos diretores Glauber Filho e Joe Pimentel. Enquanto filme, apresenta vários problemas, mas enquanto mensagem, é absolutamente necessária. O homem Adolfo Bezerra de Menezes – que a maioria dos brasileiros não conhecia – é lição para todos nós. A vida precisa ter sentido. Um sentido que cada um encontra por si mesmo, mas que a chave está na solidariedade e na caridade em relação ao próximo.

Até a próxima!