Esta noite eu tive um sonho. Puramente real. Acordei com a sensação de que a realidade era uma mentira. Na verdade, ao despertar, pensei que ainda estivesse dormindo.
Se você assistiu “A Origem” (“Inception”, EUA, 2010), do roteirista, diretor e produtor inglês Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”, “O Grande Truque”, “Batman Begins”, “Amnésia”) irá perceber que o primeiro parágrafo diz muito sobre o filme. Se ainda não assistiu, não perca mais tempo dormindo: acorde e corra para o cinema!
“A Origem” é, seguramente, um dos melhores lançamentos cinematográficos do ano. Ainda que o roteiro parta de um argumento mirabolante – sobre o qual Nolan não explica as entrelinhas de sua inspiração –, o diretor consegue, como poucos, manter o espectador grudado na tela. Se você piscar o olho, já era: algo interessantíssimo foi perdido. É bem provável que o efeito hipnótico do filme seja obtido exatamente pelo que o enredo traz de estranheza, num emaranho de informações estonteantes.
A película fala de um assunto recorrente na obra do jovem diretor inglês: a obsessão. De uma maneira ou de outra, suas histórias sempre perpassam o tema. Desta vez, a questão se implanta, se fortifica e se define através dos sonhos.
Leonardo DiCaprio, excelente como sempre, é o líder de um grupo especializado em invadir os sonhos alheios, roubando-lhes segredos. Mas a empreitada se revela perigosa, quando o bando é contratado para executar algo que supostamente ainda não havia sido feito. Para complicar as coisas, há também o fato de que DiCaprio tem um segredo. Algo aprisionado em seu subconsciente, que precisa se libertar e que pode colocar em risco toda a sua equipe.
Indo além do efeito espetacular alcançado pela mise-en-scène genial de Christopher Nolan, o filme discute uma questão milenar que ainda hoje não apresenta resposta definitiva: o que são os sonhos? Eles têm poder transformador? Eles são capazes de definir os valores, os desejos, a vida de uma pessoa? Eles podem mudar o destino? Aliás, existe destino?
O filme não pretende trazer respostas a quem o assiste, mas o princípio é lançado: pensamento, palavras e ações. É essa a tríade – não necessariamente nesta ordem – que define, transforma e redefine o ser humano. Não há outro caminho para o homem e para aquilo que cada um deseja a si mesmo e aos outros. Assim, o final da história pode não ser idêntico a cada espectador – ou, pelo menos, a sensação que ele proporciona.
Se você é daquele tipo que às vezes acorda achando o sonho muito mais real que a realidade, e o real bem mais onírico que o sonho, talvez encontre em “A Origem” algo que lhe ajude a (in)compreender minimamente algumas perguntas sem resposta. Também é bem provável que nada encontre e, embora o ceticismo possa a isso levar, você, ainda assim, terá a chance de sair do cinema achando a vida um enorme, complexo e maravilhoso sonho.
Até a próxima.
