O objetivo é simples, embora audacioso: a tentativa de relatar, analisar, discutir, confrontar, criticar e respeitar tudo aquilo que permite admiração ou repulsa nos sons, nas telas, nos palcos e nos livros da vida.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
De velho e louco todo mundo poderia ter um pouco...
A ideia de nascer muito velho e rejuvenescer com o passar dos anos até que é muito boa. Mas desde que a velhice venha carimbada apenas no físico, deixando a mente e o espírito verdes e livres para a aprender. Imaginem anciãos brincando de carrinho no quarto enquanto crianças discutem na sala a crise mundial. Agradável bizarrice! No mínimo, promoveria mudanças radicais no relacionamento entre os ditos seres humanos, posto que no mundo sempre houve aqueles que são qualquer coisa, menos humanos.
Agucemos a visão: se as crianças de mente adulta governassem o mundo, muita coisa desgraçadamente ruim deixaria de existir. Ou, pelo menos, diminuiria na medida de noventa por cento, daí para mais. Criminalidade, violência, ganância, traição, luxúria, programas de auditório, telenovelas, Big Brother Brasil e os políticos não teriam vez. É bem provável que até a fome se extinguisse.
No extremo oposto, se bebês estivessem nascendo já com os sintomas físicos da senilidade, não teríamos as aposentadorias miseráveis que a maioria dos idosos deste país recebe. Afinal, estariam acabando de nascer. Velhos, é verdade, mas recém nascidos. Também não haveria o descaso. Nesta evolução biológica às avessas, durante a chamada “fase adulta”, todo cidadão ainda seria velho. Por conseguinte, a idiota necessidade que muitos representantes do sexo masculino têm de se mostrar providos de litros de testosterona não existiria. A Terra, desta maneira, gozaria de mais fraternidade e menos discórdia.
Por tudo isso e mais um tanto, é de se lamentar que estes fatos só existam no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button” e no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald escrito em 1920, que deu origem ao petardo cinematográfico estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett. O controverso diretor David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “Zodíaco”) parece ter, com esta obra, mudado seu foco. Melhor: suspeita-se ter redimensionado sua perspectiva. Classificado outrora como sanguinolento e pouco generoso com seus protagonistas, Fincher agora ressurge carregando a alcunha de “bom moço”, filosoficamente preocupado com o passar do tempo e com a inevitabilidade do destino, cujo fim que se revela idêntico a todos. Aliás, o atroz correr dos anos não é tema inédito aos grandes artistas. Basta citarmos dois: o cineasta sueco Ingmar Bergman e o dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Ambos tinham uma profunda e inesgotável fixação no tema, que parecia nunca abandoná-los.
Tem mais. Continuemos imaginando: além de nascermos velhos, poderíamos também vir ao mundo ligeiramente loucos. Mas, vejam bem, acometidos todos de uma loucura branca, angelical, distante da vilania que assola alguns lunáticos como, por exemplo, canalhas da estirpe de um George W. Bush. Felizmente, para o regozijo de seis bilhões de seres humanos (lembrando que alguns estão muito mais para desumanos), o cretino colherá agora o legado que merece: o esquecimento, recheado com a sua colossal mediocridade.
Seríamos, enfim, um bando interminável de bípedes e mamíferos felizes. Os jovens cuidando dos velhos. Enquanto uns envelheceriam de juventude, outras rejuvenesceriam de velhice.
Até a próxima.
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