segunda-feira, 23 de março de 2009

Tudo a ver, ora bolas!


Elegeram Angelina Jolie a mamãe mais sexy do mundo... Uau, que bacana! Após meses de afastamento e de engorda braba, Ronaldão voltou a campo e tratou de fazer rapidinho dois gols... Que jóia, que fenômeno! Mudaram as regras de pontuação da Fórmula 1, deixando-a com critérios pouco esportivos para se definir o campeão... Que legal, chique demais!


Pois é, e o que a gente tem a ver com tudo isso? Absolutamente nada, ora bolas! Em compensação, o que temos a ver com a roubalheira de “integrantes” do TRT-MG e do TCE-MG? O que temos a ver com as pilantragens de deputados que até castelos de contos de fada possuem? O que temos a ver com os prefeitos cassados por atos ilícitos e com outros tantos políticos que estão em vias de sê-lo? Absolutamente tudo, pombas! A culpa, em parte, é muito nossa. Afinal, somos o povo. El pueblo, ¡cuño! Em se tratando dos políticos, nomeados por eleição, o povo é o culpado. Democracia exige caráter, cobra responsabilidade, inclusive no ato de votar.

Na Argentina, por muito menos (ou por muito mais, ou por qualquer coisa) fazem “panelaço”, saem às ruas, quebram o pau. Já o brasileiro, que ótimo, faz piada. E achamos um barato o nosso senso de humor. Também, o que esperar de um povo que, há décadas, assiste sistematicamente o novelão? Pior: o que esperar de uma nação que delira com programas de auditório em rede nacional capitaneados por apresentadores medíocres, vomitando assuntos imbecis?

No balanço final, uma grande tristeza. Difícil esperar algo verdadeiramente bom do Legislativo e do Judiciário. Difícil também esperar que nós, o povo, um dia levantemos a voz.

Por isso mesmo, é de enaltecer quando artistas legítimos – clássicos formadores de opinião – utilizam-se do talento para bradar contra os tumores sócio-político-econômico-religiosos que apodrecem o mundo. São como icebergs flutuando num mar de lama. Um livro como “Terceira Residência”, de Pablo Neruda, por exemplo. Uma tela como “Guernica”, de Pablo Picasso. Um filme como “Leões e Cordeiros”, de Robert Redford. Obras fundamentais, que tratam, cada qual à sua maneira, de um assunto recorrente: a guerra. E assim o fazem porque discutem a grande bestialidade humana. É preciso que soltemos um sonoro “basta!” contra todo o tipo de violência. É igualmente necessário que levantemos as mãos e acenemos contra qualquer ato de corrupção e jogatinas ilícitas daqueles que têm como função estabelecer e preservar as leis.

Neste contexto, um filme como “Milk – A Voz da Igualdade” também se faz essencial. O diretor norte-americano Gus Van Sant (“Elephant”, “Paranoid Park”, “Drugstore Cowboy”) acerta a mão e o olhar ao trazer à baila o moralismo hipócrita que tentou combater as transformações sócio-culturais das décadas de 1960 e 1970. O filme revela as texturas e os matizes do preconceito, que desumaniza qualquer sociedade. Através do cidadão Harvey Milk – em magistral interpretação de Sean Penn – temos um exemplo para as minorias (e maiorias), por sua luta e obstinação, que lhe custaram a vida. A última fala de Milk descrita no roteiro define com primazia o caráter do personagem e a lição do dia. Algo assim: “Eu não faço política por ego ou por poder, mas por acreditar que precisamos lutar contra o preconceito e por acreditar que as minorias têm os mesmos direitos que os demais”. É isso aí, bicho.

Até a próxima.