O objetivo é simples, embora audacioso: a tentativa de relatar, analisar, discutir, confrontar, criticar e respeitar tudo aquilo que permite admiração ou repulsa nos sons, nas telas, nos palcos e nos livros da vida.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
10 momentos cinematográficos inesquecíveis
Dia desses, peguei-me pensando nalgumas cousas, todas elas estranhas. Aliás, quase todo dia isso acontece. Dentre minhas bizarrices, questionei-me: “quais frases e diálogos proferidos em filmes podem ser considerados inesquecíveis?”. A resposta é fácil: aqueles que a gente não esquece, ora bolas. Por isso mesmo, já com a resposta entre os beiços, não precisam me perguntar porque me perguntei sobre algo tão imprescindível para a raça humana. Apenas julguei - naquele momento – que, de todas as cousas sem importância, talvez o cinema seja a mais importante. Ou será o teatro? A música? A literatura? Quer saber? Nenhuma delas. O mais importante dentre as cousas menos importantes é mesmo o futebol. Está decretado. E mais não digo, porque o segundo tempo já vai começar...
Voltaaando às frases fílmicas, eis que me deleguei o salutar trabalho de selecionar de cabeça – senhoras e senhores, vejam bem: de cabeça, sem recorrer à pesquisa – as 10 (dez) frases e/ou diálogos que, no meu parvo entendimento e gosto pessoal, são as melhores do cinema. Uau, acredito estar à borda de estabelecer novos paradigmas. Tal e qual Madonna quando gravou “Borderline”... Meu Deus, de onde eu tirei isso?
Sem mais delongas, vai a lista cientificamente elaborada (sic), incluindo preciosas rubricas de ação, sem as quais o “momento mágico” não poderia se fazer entender:
1. No filme catástrofe “Tubarão”, de Steven Spielberg, Roy Scheider se estupefaz ao ver o barco de Robert Shaw e Richard Dreyfuss, destinado à aventura marítima, que objetiva nada menos que a captura e destruição do grande monstro assassino que assola as águas da região. A frase de Scheider tem o poder da síntese de um gênio, em toda a sua mais absoluta perplexidade: “Acho que vocês vão precisar de um barco maior...”.
2. A ficção científica noir “Blade Runner”, de Ridley Scott, possui daqueles finais maravilhosos. Quanto a isso, todos concordam. Aliás, quanto a tudo neste filme, eu acho. O replicante de Rutger Hauer poderia fazer do Deckard de Harrison Ford picadinho de carne seca – ou melhor, molhada -, mas opta por salvar-lhe a vida. O último texto do andróide, segundos antes de apagar (literalmente) é tocante. Com o perdão da memória, a passagem é mais ou menos assim: “Eu tenho visto coisas através das galáxias, por todo esse universo sem fim, que vocês humanos jamais imaginariam, em sua visão limitada. E tudo isso vai se perder, como lágrimas na chuva”. Vale lembrar que na Terra de 2025 a chuva é ácida - e chove uma barbaridade, em tempo integral.
3. O já citado S.S. (Steven Spielberg) aprontou, no início dos anos 80 do longínquo séc. XX, o bacaninha “E.T.”. Uma das frases mais conhecidas da sétima arte é aquela proferida pelo próprio homenzinho verde, que possui os contornos de um saca-rolha moderno (ou será o saca-rolha que se parece com ele?). Em sua síntese puríssima, a frase carrega em si a força de um édito filosófico: “ET phone home”. Repitamos: “ET phone home”. Mais uma vez: “ET phone home”. Bonitinho demais.
4. No iraniano “Salve o Cinema”, o genial Mohsen Makhmalbaf (caramba, esse nome eu acho que vou ter que conferir...) dá uma lição de igualdade e esperança a todos que sonham viver a experiência de se ver na tela grande. Após passar todo o filme deixando-nos raivosos devido à sua aparente arrogância, o diretor - que “interpreta” a si mesmo – revela o motivo de todos aqueles testes de elenco realizados em Teerã. É algo mais ou menos assim o seu pronunciamento ao final da película: “Vocês todos que acabaram de fazer estes testes, na verdade, acabaram de fazer um filme. Isso aqui já é o filme. Todo mundo fez o filme. E o que isso prova? Que o cinema é para todos!”. Sabe das cousas, esse Mohsen...
5. John Boorman é inglês – eu acho – e responsável pela melhor adaptação para o cinema da lenda do Rei Arthur que, diga-se de passagem, é qualquer cousa de fascinante. Pois é. O diretor presenteou a todos com o melhor da festa: sua primorosa visão de Merlin, Morgana, Arthur e cia. Logo no início, vemos o rei Uther Pendragon desejar loucamente a bela Igraine. O nobre pede ao mago Merlin que use de feitiço para ajudá-lo a satisfazer seu apetite sexual pela mulher cujo marido acabara de morrer em batalha. E Merlin, safo como ele só, dispara a pérola: “Pedes-me que o ajude. Muito bem, saibas então que o fruto da sua luxúria será meu”. Mal sabia Uther que o mago estava se referindo ao bebê Arthur, assim que nascesse. Após a consumação do ato lascivo, o druida ainda arremata para as estrelas: “O futuro plantou suas raízes no presente”. É óbvio, mas é jóia isso, não é?
6. “Assassinos por Natureza” - filme que, aliás, não gosto, nem a porrete -, escrito e dirigido por Oliver Stone, a partir de argumento Tarantinesco, tem a célebre frase de Juliette Lewis, num diálogo com Tom Sizemore. O sujeito quer que ela aperte e morda seus mamilos. Ela, não se fazendo de rogada, dispara: “Humm, you so specific!”. É isso aí, bicho. Essa fica no inglês mesmo. A sonoridade é tão bacana na língua de Shakespeare que não carece tradução para nosso código secreto em vias de mudança, também conhecido por português.
7. Em “Os Imperdoáveis”, o diretor Clint Eastwood (a propósito, Clint é como vinho: quanto mais velho, melhor) interpreta o ex-assassino William Mannie, enquanto Gene Hackman faz Little Bill, delegado de uma cidadezinha americana no meio do absolutamente nada. Morgan Freeman é Ned, outro ex-criminoso, amigão de Will. Ned é espancado até a morte por Little Bill. Ao tomar conhecimento da lambança feita pelo delegado, Will – devidamente turbinado de uísque – adentra a espelunca onde o delegado e seus valentões comemoram a morte do bandido, cujo corpo enfeita a fachada, num caixão podrão. O fragmento do diálogo:
L.B.: “Você é William Mannie, assassino de mulheres e crianças do Missouri, não é?”.
W.M.: “Sou eu mesmo. Já matei quase tudo que anda e rasteja. E estou aqui para matar você, Little Bill”.
Nossa, dá até medo. Coitado do Gene Hackman.
8. Ainda em “Os Imperdoáveis”, antes de deitar uísque pela goela e voltar a ser um assassino impiedoso e vingativo, Will divaga com seu comparsa Kid (não me lembro o nome do ator) algo que merece reflexão profunda. Cabe aqui uma pequena explicação: Kid é o rapazote que convidara Will – que, por sua vez, convidara Ned – para vingar a prostituta que teve seu rosto imperdoavelmente retalhado com navalha por dois vaqueiros toscos (daí o título do filme). Aquele que botasse os agressores a sete palmos da superfície terrestre, receberia U$ 1.000,00 de prêmio, valor levantado através de “vaquinha” entre as outras prostitutas da cidade. Acreditem, mil dólares em 1880 e alguma cousa era dinheiro que não acabava mais. Hoje em dia... Muito bem, voltemos à divagação de Will: o cara deixa suas palavras escorrerem pela boca, direcionadas a Kid, que acabara de matar - na privada! - um dos vaqueiros, que fazia um danado dum cocô. O texto: “Matar alguém é a coisa mais terrível que se pode cometer. Você tira da pessoa tudo que ela tem e tudo que algum dia ela poderia ter”. Pergunto-me se existe frase mais verdadeira que esta, lamentavelmente ignorada desde o princípio dos tempos.
9. Michael Mann é o cara. No espetacular “Fogo contra Fogo” (leia-se Al Pacine x Robert De Niro), além de equilibrar maravilhosamente dois gigantes do cinema norte-americano, há diálogos supimpas. Num deles, o bandido Neil – personagem de Mr. De Niro – descobre que fora traído pelo empresário Van Zant, de cujo ator nunca me lembro o nome. Emputecido, Neil descola o telefone do gancho, disca para o empresário traidor e vocifera sua profecia. Exertos do diálogo:
N.: “Van Zant?”.
V.Z.: “O próprio”.
N.: “O telefone está mudo”.
V.Z.: “O que?”.
N.: “Está mudo. Tem ninguém aí, do outro lado da linha”.
V.Z.: “O que??”.
N.: “Eu estou falando com um cadáver”.
TOC! – “Toc!” é sonoplastia para “Neil coloca com força o fone no gancho”. Guapas y muchachos: escutar isso do Neil não é boa cousa. Definitivamente. Van Zant cortou na hora mais pregos que a marcenaria aqui da esquina corta numa semana inteira.
10. No clássico “Uma Rua Chamada Pecado”, de Elia Kazan - versão cinematográfica da peça homônima de estrondoso sucesso na Broadway, adaptada da obra “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams -, Marlon Brando faz ninguém menos que Stanley Kowalski, um dos mais charmosos crápulas da história do cinema e – por que não? - do teatro. Tentando ser objetivo, nem vou citar Vivien Leigh, Kim Hunt e Karl Malden nos outros papéis principais, por mais que mereçam (o Oscar daquele ano que o diga...). Ao final do filme, ao pé da escada, Brando dispara a célebre frase de Kowalski: “Steeeeellaaa!!!”. E como esta, com a profundidade desta, outra jamais se ouviu.
Fico por aqui, anunciando ter gostado do serviço e concluindo que escolher dez entre milhões de frases é tarefa ingrata. Melhor seriam cem, talvez mil. Ainda assim, o negócio seria uma trombose. Legal mesmo foi perceber que, mesmo após uma data sem assistir a estes filmes, acabei me recordando de todos com razoável precisão. Ainda bem que esta empresa se deu exatamente como propagandeei no início: descrever passagens paradigmáticas, memoráveis, sem qualquer consulta prévia e póstuma, numa sentada só. Tudo sem a menor importância, é claro, mas que preencheu uma parte importante do meu preciosíssimo tempo.
Encerro em definitivo com a mais inolvidable de todas as frases fílmicas, na melhor interpretação de todos os tempos (sic, sic): “Hasta la vista, baby”.
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