quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma (di)versão sobre o amor

Que o amor tem várias formas, isso já sabemos. Que os caminhos para o amor podem ser tortuosos, é igualmente conhecido. Que não existe fórmula para o amor perfeito, também é de se supor. Fato é que, em se tratando do assunto, tudo é possível e, às vezes, provável, ainda que dentro de inúmeras improbabilidades.

Refletir sobre o assunto faz com que pensemos sobre a vida, de maneira mais ampla. O amor não se restringe aos pares, mas a um conceito irrestrito de existência. Vive verdadeiramente quem ama – a si mesmo, a família, os amigos, o próximo, o trabalho, a natureza, as coisas que o cercam. A Deus. Desnecessário, pois, afirmar que o amor é o sentimento mais profundo e verdadeiro, embora seja possível que algumas pessoas amem de maneira, digamos, pouco convencional.

Sobre isso se pode discutir. Pode-se, inclusive e necessariamente, escrever. Poetar (há quem diga poetizar), pintar, compor, levar ao palco. E por que não filmar?

Foi pensando assim que o roteirista Michael Konyves decidiu adaptar para o cinema o livro “Barney’s version”, do escritor canadense Mordecai Richler que, por sua vez, utiliza-se de Barney, seu personagem principal, para moldar uma caricatura de si mesmo, em sua relação com tudo aquilo que o cerca. Seguindo e finalizando esta esteira, coube ao diretor Richard J. Lewis levar a história à tela grande.

O filme “A Minha Versão do Amor” (“Barney’s version”, Canadá, 2010) coloca-nos em contato com o já citado Barney, um sujeito neurótico, politicamente incorreto, boêmio e profundamente enamorado. Como resultado, temos aquele tipo de personagem que teria tudo para ser desprezado, mas acaba adorado, devido às suas imperfeições. Por isso, o filme diverte e comove, conta-nos sobre vida e morte, desejos e medos, amores e paixões.

O norte-americano Paul Giamatti elabora uma das melhores construções dramáticas dos últimos anos no cinema. Ator dos mais versáteis, Giamatti é capaz de mudar do riso às lágrimas num instante, com extraordinária precisão. Sua performance atinge momentos sublimes, quer seja na juventude ou na senilidade do personagem. A seu lado, em aparições pontuais no decorrer do filme, temos um Dustin Hoffman impagável, no papel de pai do protagonista, confirmando sua fama de um dos maiores intérpretes de Hollywood.

Barney é um cidadão incapaz – é completamente inapto em ser “correto”, o que lhe confere dimensão sensível. Torna-se inevitável pensarmos que o ser humano se constrói através de seus inúmeros erros e de suas enormes dúvidas. Faz com que ponderemos sobre a possibilidade de que todas as pessoas podem ser potencialmente boas, capazes de amar, ainda que alguns se deixem levar por pensamentos mórbidos e atitudes atrozes.

As impressões de cada espectador sobre o enredo podem variar, mas é difícil escaparmos àquela sensação de inexorabilidade do tempo. Assim, o que vale realmente a pena são as coisas mais singelas, ou ainda o prosaico da existência, sem necessidade de brilho e espalhafato.

Até a próxima.

Nenhum comentário:

Postar um comentário