quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O fluxo da vida como a lava de um vulcão

Um filme metafísico. Por mais que procure outras maneiras de compreender algumas questões presentes no enredo, não consigo alterar a primeira impressão que tive ontem ao assistir “A Árvore da Vida” (“The Tree of Life”, EUA, 2011). Com esta obra, o diretor e roteirista Terrence Malick retoma, de certa forma, a ideia delineada em outro filme de sua autoria, “Além da Linha Vermelha” (“The Thin Red Line”, EUA, 1998), embora este último tenha como assunto a violência absurda da II Guerra Mundial, durante a Batalha de Guadalcanal, travada entre norte-americanos e japoneses nas Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico. Em ambas as películas, percebemos que um dos princípios desenvolvidos por Malick reside no fato de que a vida se movimenta, muitas vezes, devido meramente às circunstâncias. Todavia, mesmo neste contexto, cada um de nós tem capacidade de reflexão e poder de decisão. Desde a primeira frase de “A Árvore da Vida”, a ideia está presente. Diz a voz: “Existem duas maneiras de se viver: a maneira da natureza e a maneira da graça. Nós temos que escolher qual delas seguir”.

Esta dicotomia permeia a obra, constrói o discurso e traz sensações. É como se o ser humano pudesse escolher o seu caminho, mas isso não significa que ele esteja imune ao acaso. Desta forma, os combates bestiais criados pelos homens que, no outro filme, aterrorizam e destroem, são agora substituídos por desespero e inércia perante os eventos imprevisíveis, capazes de interferir na vida de qualquer um, causando, da mesma forma, sofrimento e frustração. Tudo isso pode parecer óbvio, mas Malick talvez queira, na verdade, refletir sobre a possibilidade destas coisas terem origens mais complexas do que parecem.

O enigmático diretor – avesso a entrevistas e aparições públicas – constrói momentos sublimes, que nada têm de “viajantes” e/ou pouco racionais, conforme comentários que escutei após a sessão. Tudo é pensado, refletido, espelhado, metaforizado e extraído de nossos medos e desejos. Sonhos plenos, individuais e inebriantes, como a maternidade, confundem-se com eventos gigantescos, como a formação de uma galáxia. E, embora pareçam fatos distantes, podem estar mais próximos do que imaginamos.

As relações familiares e as reflexões dos personagens de Brad Pitt, Jessica Chastain e Sean Penn mais parecem anseios paradoxais, na medida em que escutamos no decorrer do filme frases como “é preciso uma vontade feroz se quiser vencer na vida” e “guie-nos (Deus) até o fim dos tempos”. Ou seja, o homem pode escolher, mas não completamente, pois está inserido em algo muito maior que o próprio Eu. Nascer e morrer são fatos inquestionáveis, imutáveis, para a natureza, os animais, a raça humana e o universo. “Algum dia você vai cair e chorar. E então vai entender tudo. Todas as coisas”, diz Brad Pitt a seu filho primogênito, embora esta declaração pareça direciona a todos – ou almejada por todos.

A beleza das imagens e as conexões entre elas, estabelecidas pela montagem, som e texto, criam sentimentos particulares, que podem variar da ternura ao incômodo. Por isso, há quem termine o filme extasiado e há aqueles que o abandonam no meio do caminho. Os que aceitam as proposições de Malick e se deixam levar, ao meio e ao cabo, são presenteados com a reflexão mais arrebatadora da obra: “a não ser que você ame, sua vida passará com um flash”.

É isso. Sem mais para o momento, despeço-me. Até a próxima.

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