segunda-feira, 25 de julho de 2011

Em tempos de precocidade máxima

Um sujeito me procurou outro dia com um material curioso: um curta-metragem produzido por seu filho. Apresentando-se como advogado trabalhista apaixonado pela Sétima Arte, o homem pedia que eu assistisse à obra do herdeiro, para que pudesse ajudá-lo a orientar o guri quanto ao caminho a seguir, no que diz respeito aos estudos de cinema. Essas coisas acontecem com quem leciona no meio audiovisual e, até aí, tudo bem. É inerente ao ofício. Mas, na maioria das vezes, a gente desconversa, pede desculpas, diz que irá dar uma olhadela quando tiver um tempinho e assim vai. A verdade é que quase ninguém tem tempo e/ou disposição de assistir tudo aquilo que pedem que a gente veja. É esse o fato. No entanto, o sujeito era simpático e educadamente insistente. Ao meio e ao cabo, acabei me rendendo à sua solicitação e assistindo ao filme.

O curta do garoto, feito em miniDV com recursos modestíssimos, jamais passaria de interessante, se o autor não fosse exatamente isso: um garoto. De treze anos! E aí, não teve jeito: coloquei-me a pensar nesta questão.

A questão é: o simples fato do garoto ter feito um filme, ou vídeo, como queiram (embora fazer qualquer coisa nesta área nunca seja propriamente simples), já é, em si, algo relevante. Legitima qualquer esforço. O diretor norte-americano Sidney Lumet (1924 – 2011), já dizia em seu livro “Fazendo Filmes” (Ed. Artemídia Rocco, Rio de Janeiro, 1998): “o primeiro filme de um diretor basta por si só”. Ainda que o termo “diretor” evidentemente não possa ser aqui aplicado, é notável o fato de um menino escrever um roteiro, decupá-lo, acender um refletor, montar um tripé, enquadrar uma câmera, gravar um vídeo com vários planos e cenas, e editá-lo, instintivamente, sem qualquer subsídio e contando apenas com a ajuda de alguns amigos.

A reflexão não se extingue aqui. Ao contrário, inicia-se. Esse garoto é o exemplo de como a nova geração está se relacionando com o cinema hoje, quer seja no tocante ao acesso a filmes para consumo particular, quer seja na absorção das possibilidades de realização audiovisual.

Este panorama contemporâneo é causa e efeito: as novas mídias, aliadas aos modernos mecanismos de veiculação/exibição de conteúdo, têm possibilitado que parte da população (ainda que pequena), desde muito jovem, trave contato com som e imagem, inserindo-se naturalmente neste sistema de consumo/produção/promoção. Além disso, o meio audiovisual evoluiu dentro desta lógica de ação e reação: a produção cinematográfica brasileira cresceu imensamente na última década, despertando o interesse de uma significativa parcela da nova geração, nas grandes e médias cidades, antenada aos novos veículos de comunicação, que permitem rápido acesso à informação e que, por sua vez, têm feito surgir a necessidade de capacitação, gerando assim escolas e cursos de cinema, capazes de colocar no mercado jovens ávidos em produzir e que, por sua vez, se aproveitam e/ou criam espaços para distribuição daquilo que produzem. Ufa, a última frase ficou enorme... Mas é possível que traduza a urgência do pensamento. E tudo isso sem falar nos mecanismos de incentivo – leis, editais, concursos –, em âmbitos federal, estadual e municipal, que também têm contribuído na construção desta realidade. Como resultado, temos um enorme volume de curtas-metragens sendo realizados nos últimos anos. Basta verificar as mostras e festivais nacionais: grande parte das obras inscritas e selecionadas nos últimos eventos têm, como autores, jovens realizadores, capazes de articular discursos atraentes, utilizando-se de técnica e gramática audiovisuais com consciência.

Traçando um escopo, percebe-se facilmente um cenário auspicioso, no tocante à formação de novos realizadores e técnicos.

Em um meio tão concorrido, onde os equipamentos/serviços de filmagem e de pós-produção são, desde sempre, bastante onerosos, saber que a formação de mão-de-obra e o interesse pelo nosso cinema é uma realidade pululante entre os jovens, deixa-nos otimistas quanto ao nosso futuro cinematográfico. Obviamente, ainda há muito que caminhar. Proporcionar a uma gigantesca parte da população a inclusão digital deve continuar como meta. Mas parece-me que, neste sentido, o Brasil caminha. De maneira lenta, mas caminha. Sigamos então.


[Artigo publicado na Revista do Cinema Brasileiro, em 19/07/11]

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