A propósito de estarmos às vésperas da eleição e, ao mesmo tempo, nada a ver com isso, refugiei-me no cinema. Meu Deus, veja como são as coisas: talvez, a breve citação textual que acabei de tecer quase organicamente ao pleito de 03 de outubro, reflita minha desesperança na maioria dos candidatos alegóricos que tenho visto desfilando por aí, nos veículos de comunicação. Faço, na verdade, pouquíssimas exceções no tocante a bons “politicáveis” (candidatos a políticos, como é de se supor o sentido do termo aqui forjado). Mas não cito nomes, porque acho que belas crônicas não devem propagandear esse ou aquele cidadão, ainda que possam estar imbuídos de boas intenções.
Voltemos ao cinema sem delongas. Onde parei? Certo, certo, no ato de refugiar-me numa sala de exibição. É isso? Sim, sim. Pois então, eis que dois eventos sensacionais aconteceram recentemente em Belo Horizonte, um grudado no rabo do outro. Mal se finalizou o “Indie.10” – Mostra do Cinema Independente, em seu décimo ano de existência, iniciou-se o “Imagem dos Povos” – VI Mostra Internacional Audiovisual. Em ambos os casos, filmes excelentes na programação, oriundos de diversos países, que sintetizaram uma extensa gama de possibilidades estéticas e narrativas para o cinema contemporâneo.
Embora o argumento destas linhas seja a sétima arte, a razão de ser de todos estes caracteres passa longe disso. Reside num diálogo, que me veio à lembrança e que é digno de figurar num roteiro cinematográfico. Acho que a história foi assim:
Uma bela mulher estava sozinha numa mesa de bar. Pode ser que fosse em Santa Tereza, mas nada posso garantir quanto a isso. O fato é que a beldade ali estava, tecendo suas elucubrações. Talvez até pensasse naquele motorista de ônibus por quem se apaixonara no dia anterior. Quanto a isso, também nada comprovo. Atesto, apenas, que um sujeito aproximou-se da moçoila, quebrando-lhe o silêncio interior.
SUJEITO – Não quero importunar, mas qual o seu nome?
MOÇA – E pra que quer saber?
SUJEITO – Ora, as belas coisas da vida merecem ser conhecidas.
MOÇA – Que cantada barata!
SUJEITO – Melhor assim. Pra certas coisas, não há preço mesmo.
MOÇA – Que horror!
SUJEITO – Me diz o seu nome, vai.
MOÇA – Não tô a fim. Por que você não vai cantar em outro terreiro, hein?
SUJEITO – Não existe por perto outro que valha a pena.
MOÇA – Então finja que eu não tô aqui.
SUJEITO – Mas eu sou um péssimo ator...
MOÇA – Será que você não percebe que tá sendo inconveniente?
SUJEITO – Eu só gostaria de saber o seu nome.
MOÇA – Ângela. Pronto, falei! Agora vai embora.
SUJEITO – Certo, eu vou. Mas antes, Ângela, você poderia me dar um cigarro?
A moça lhe entregou o cigarro e o sujeito foi-se mais que depressa. Conclusão: para toda demonstração de interesse há sempre uma intenção escondida.
É isso! Está aqui porque me lembrei da política.
Nenhum comentário:
Postar um comentário