Os gaúchos Kleiton e Kledir Ramil já diziam na “Canção da meia-noite”: “um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê”. Segundo eles mesmos, uma música anormal, recheada de seres noturnos, decantados em harmonia, ritmo e melodia.
Devíamos ter ficado com eles. Mas não, tínhamos que ir adiante. Precisávamos ir ao cinema. E agora? Pois é, lá fomos ver “Eclipse”... Bem feito! Quem mandou?
“Eclipse” é o terceiro filme saga “Twilight”, adaptado do livro honômino de Stephenie Meyer e dirigido por David Slade, um jovem britânico diretor de vídeo clipes. Sorte do saci-pererê, que ficou fora da história. Para o vampiro e o lobisomem, coitados, um terror! E para o público, a mesma coisa: horror! Não no sentido de gênero fílmico, mas no tocante a ser ruim mesmo.
O filme é daqueles que só agrada a garotada, devido a seu romancezinho rocambolesco, cujas peripécias amorosas do triângulo protagonista acaba, para nós, virando um grande pé no saco.
Vamos aos fatos: Edward Cullen é o vampiro vegetariano bonzinho de cabelo penteadíssimo, que anda durante o dia, acompanhado de toda a família Cullen. O cara é apaixonado pela jovem Bella, mas é “das antigas”: só quer saber de transar com a moça humana, ainda virgem (!!), depois de casar-se com ela – leia-se transformá-la em vampirazinha. A rapariga, por sua vez, está doidinha querendo. Pra complicar, seu amigo de infância, Jacob Black, um jovem lobisomem que passa quase todo o tempo de dorso nu, exibindo seus músculos acadêmicos, também está enamoradíssimo por ela. Obviamente, a beldade se vê dividida: o vampiro casto, ariano, educado, de sangue literalmente frio (ora, o sujeito é um morto-vivo, pombas!) ou o homem-lobo, nervosinho, bronzeado e halterofilista?
Pronto. Temos aqui quase toda a história. O filme fica rigorosamente nisso. Um porre dos infernos. Há ainda uns vampiros malvados, liderados por uma chupa-sangue maluca e vingativa, mas nem vale a pena aprofundar nisso aí.
O problema de uma historieta como “Eclipse” não é a invenção mirabolante. Recriar, reescrever, recontar algo que já existe pode ser bacana. A questão aqui vem bem antes disso, uma vez que os paradigmas são pessimamente reconfigurados. Vampiros e lobisomens são seres solitários por natureza. Os homens-lobo quase nunca podem ter amantes, pois, a cada lua cheia, metamorfoseiam-se, colocando em risco a vida da própria amada. Para os vampiros, a realidade é ainda pior: obrigados a viver eternamente apenas durante a noite, vivem, portanto, "meia-eternidade". São predadores, forçados a chupar sangue para se manterem vivos. Temos aqui aquilo que podemos chamar de maldição: a imortalidade ao preço da impossibilidade do amor e da convivência coletiva.
A busca pela juventude eterna é coisa alquímica. A questão “renovação do sangue pelo assassinato em troca de vida muita longa” traz à baila questões filosóficas e até mesmo fisiológicas. Será possível? Mas o preço a se pagar não é alto demais?
Recontar histórias, cujas lendas remontam ao antigo Egito, ou advindas de qualquer época e local, pode mesmo soar interessantíssimo. Mas colocar vampiros de purpurina, caminhando de dia, comendo vegetais, vivendo amores intensos e sendo caras muito legais, faz com que o negócio deixe de ser maldição e se torne uma benção. Agora eles são anjos. Aí fica fácil, qualquer um topa a parada. Eu mesmo fiquei doido pra virar um morto-vivo. Há vampiras de plantão por aí a fim de me dar uma mordidinha?
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